quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

X

Talvez eu te ame por uma noite, talvez te ame por várias, por todas as noites do resto da minha vida. Posso dividir com você um cigarro, o táxi ou meu teto. Pode ser só mais um caso, pode ser um sonho. Talvez eu faça minhas malas, talvez nem fique até escurecer. Pode ser a primeira foto, mas também pode ser a única, o último amor ou apenas mais um.Talvez você me faça o jantar, talvez eu saia antes da sobremesa. Talvez seja só por agora, mas também pode ser pra sempre.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Falo teu nome em voz alta


Falo teu nome em voz alta
Sílaba por sílaba lentamente
Letra a letra se desprendendo no ar
Bolhas de sabão ao vento
Sussurro baixinho
Gemido doído
Depois berro infinitas vezes
Até teu nome perder a cor
Torna-se vazio
Não mais fazer sentido
Sons dissolvidos na noite
E teu nome assim não é nada
Quase um grunhido
Fonema sem alma

Sonho nº 2

Para B.

Novembro. Retorno a cidade da infância, visito a casa que já foi minha, reviso a geografia afetuosa das montanhas sob o céu azul cinzento que antecede às tempestades. É meio da tarde, em ruas estreitas te levo comigo, tua mão descansa na minha, palma com palma enquanto com passos miúdos refaço meu passado. Te revelo histórias talvez inventadas no lago profundo da memória e risco sorrisos em teu rosto moreno. Revelo quem sou, o que de mim poderia ter sido. Me mostro, deixo cair uma lágrima que embaça meus óculos e me faz enxergar melhor o que não poderia nunca ser visto, o que não se alcança, o que se sabe que não é  aprendido em bancos de madeira, livros ou caminhos tortuosos, o que se aprende apenas quando sentido. 

Foto: Regiane Christine

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Abraços

Precisando de abraços, de longos e demorados abraços, de uma quantidade ilimitada deles. Precisando abraçar pessoas, cidades, causas, palavras. Abraçar o mundo, não só com os braços, mas com o corpo inteiro e além, abraçar com a alma, com a entrega pacífica dos que se deixam arrastar pelas correntezas. Preciso agora, não depois, com urgência sedenta, me mudar para o abraço dos que amo. 

Catharina Suleiman

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O que não se perde

Te escrevi uns versos tão bonitos, mas perdi. Devo ter jogado fora, amassado junto com o extrato do Banco que estampa o que não tenho. Ou talvez tenha ficado no fundo de alguma bolsa no vai e vem sem fim dos dias. Escrevi e agora já não consigo lembrar quais eram as palavras, metáforas e rimas que vestiam teu cheiro, que revelavam teu jeito. Mas aí, entre um suspiro e outro, lembro que posso até perder os versos bonitos que te escrevi no meio da rua, a espera do ônibus, mas a tua poesia, essa não perco, mora nos meus olhos e na saudade que carrego aqui dentro.

Trinta e oito

Há muito tempo deixei de ser uma menina,
hoje sou várias.
Sou tantas, são várias as meninas
girando, rodando ciranda
cá dentro e em volta de mim.

E tão diversas são as meninas
que no espelho não me vejo.
Uma me olha fixo nos olhos,
outra penteia meu cabelo.
Tem aquela que aperta o cinto
e uma que os nós desata.

Tem santa, mãe e puta,
as que se pintam, as que se escondem.
Tem as que se calam, as que berram,
as que apenas gemem e resmungam.
As que sonham e as que nem dormem em alerta,
algumas correm e outras apenas são espera.

Há muito tempo deixei de ser uma menina,
hoje sou várias.
E sendo tantas ainda posso ser tantas outras,
tantas quanto for preciso para ser inteira menina,
todo dia mais um pouco.




segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Slackline

Demora, mas um dia a gente se cansa de andar na corda bamba, de se divertir na montanha russa. Demora, mas a gente aprende que o bom mesmo é estar com os pés no chão, é sentir a terra, é se sujar na lama escura da vida. Demora, mas a gente aprende que quando se aprende a amar de verdade nunca mais se esquece da lição.


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

In the end

Então eu fico daquele jeito que as pessoas ficam quando não tem outro jeito: emotiva. E os olhos ficam lacrimejando por qualquer coisa, ainda mais quando vejo o sol entrando pela sala embalado pelo cheiro do amaciante que escapa da camiseta velha. Minha cabeça dói, mas antes doer a cabeça que o corpo inteiro e antes doer o corpo inteiro que o coração. E ele já não dói mais, às vezes ensaia um mal súbito, um infarto agudo. Morro e logo passa, porque o fundo do poço já não é tão fundo, porque a luz no fim do túnel agora é mais intensa e porque aquela canção já não me enche de saudade. E eu continuo daquele jeito que as pessoas ficam quando sabem que tudo que aconteceu era pra acontecer como foi, quando tudo vai bem mesmo que não pareça, mesmo quando as noites são solitárias e o dinheiro curto, mesmo quando ainda procuro um outro amor me esquecendo que ele simplesmente aparece quando menos se espera: na distração do ponto de ônibus, naquele compromisso que eu não estava muito afim de ir e acabei indo, no improvável, no dia seguinte do sexo casual que não era pra ser nada mais que sexo casual, no susto de um poema. E a vida continua com seus sinais de pontuação, cheia de reticências, vírgulas, pontos finais voluntários ou não e aquele gosto do verão passado na boca, chocolate com gengibre, porque tudo por aqui é assim: doce, picante, amargo e fresco.

Casstronaut

terça-feira, 21 de julho de 2015

Das coisas ditas mesmo quando não ditas

Eu te amo. Nunca te disse isso assim com todas as letras, nunca escrevi meu amor em guardanapos de papel em uma mesa de bar ou em mensagem de celular no meio da madrugada. Era tanto amor que preferi me calar, tinha tanto a dizer que fiquei muda, sufocada, repleta de palavras e seus significados. Mas te digo meu amor silenciosamente em cada reencontro, em cada despedida. Digo "eu te amo" quando na ponta dos pés fecho os olhos para melhor sentir teu abraço, quando admiro tuas mãos coladas as minhas, quando tento em vão te descobrir na multidão que transita pela avenida. Digo "te amo muito" na umidade do meu sexo, no olhar admirado que lanço sobre teu corpo, no beijo em que te devoro. No momento que pareço morrer em teus braços todos meus sentidos gritam ritmados o meu amor. Te disse "eu te amo" na frente do espelho em meio aos vapores do banho ou com a maquiagem borrada da festa, em noites de insônia, em todas as vezes que a cadeira a minha direita no cinema permaneceu vazia. Sussurrei meu amor por ti até mesmo em outros homens que busquei na tentativa infeliz de apagar-te do meu desejo. Berro meu amor nas consultas ao tarô, na leitura diária do teu horóscopo e em todas as vezes que espero uma ligação qualquer, uma mensagem ou sinal que diga que tu me amas também.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Poeminha invernal

O inverno pra mim é ácido:
Ácido retinoico no rosto,
Ácido ascórbico contra o resfriado.
E me lambuzo de filtro solar
Enquanto tomo limonada.


Dez minutos

É preciso mesmo deixar a cama, abrir as janelas e encarar o sol? É preciso mesmo desfazer o abraço, pintar o rosto e trabalhar? É preciso comer o pão, ir ao correio, pagar impostos, vigiar o relógio? Não, não é preciso. Necessário é sonhar, beijar teus lábios, despentear os cabelos, ficar de longe ouvindo o barulho da rua e só por mais dez minutos adiar todas as urgências do dia, gozar da liberdade inventada.

Foto: Luis Gallo

sábado, 27 de junho de 2015

Toda poesia

Toda poesia nasce de teus olhos e de tuas mãos em concha sobre meus seios, de sonhos, fragmentos de desejos ocultos que meus lábios não ousam transportar, mas que tímidos se  revelam em suspiros diurnos. Toda poesia nasce e morre de tudo que amo, do que me fere e principalmente do que me mata. 

Décimo nono andar

Parte de mim ainda olha aquela paisagem. Teu corpo deslizando pelo quarto, multidão de potes de vidro, caixas de livros que jamais serão lidos novamente espalhadas pelos cantos, teus olhos apertados diante da tela do computador, a superficialidade de tuas emoções na agenda confusa de teus dias. Parte de mim ainda advinha a cor dos teus lençóis, o movimento do sol pela sala,  o conteúdo de tua geladeira quase sempre vazia, o recorte de tuas viagens, imãs e souvenirs que  conservas como se fossem tesouros, tua avareza camuflada sem sucesso, a música que tocará em seguida. Parte de mim ainda descansa admirando a vista de tua janela, tentando imaginar o porquê das luzes acessas nos prédios vizinhos, a confuo das ruas, a força da chuva e suspira por não saber esquecer teus caminhos. Mas parte de mim, a maior parte de mim, pulou de tua varanda, sobreviveu a grande queda e observa cá debaixo,  com desdém,  a parte minha que ainda permanece tua.









The cure

É sexta-feira
e não, não estou apaixonada.

Há somente um rasgo,
um corte antigo
que os dias não cicatriza.

Talvez o sábado resolva,
o domingo camufle,

a segunda esqueça.

Ou talvez seja preciso apenas

uma outra sexta-feira.

terça-feira, 16 de junho de 2015

E o homem do conserto que não veio

A torneira da pia da cozinha não para de pingar. O cheiro de tinta da parede se mistura ao cheiro da tinta do meu cabelo e no pé da escada analisando seu corpo todo esticado tentando colocar a cortina no trilho é impossível não sentir calafrios de prazer. Seu corpo se esticando, rígido e forte lembra uma pantera pronta para atacar a cortina, o trilho, a vidraça, o avião que passa lá fora. Olho para uma caixa de livros no canto da sala e o meu Neruda cansado de tantas leituras, parece tentar espiar a confusão que fazemos aqui: o amontoado de caixas, móveis, roupas, as paredes recém pintadas de azul como o céu lá fora cortado pelo avião que acabou de passar e torneira da pia da cozinha que não para de pingar. Engraçado, parece que foi ontem nossa primeira taça de vinho em copo de requeijão, a primeira vez que acordei ao seu lado ainda tonta, embriagada de gozo e álcool, a conversa despretensiosa sobre o futuro, lembro da claridade, da lua ou do poste, entrando pela janela ainda sem a cortina que você tenta instalar agora e da impressão de haver enfim, encontrado meu lugar. Sinto fome, mas a geladeira aberta e vazia revela toda sua imensidão. Olho para você que entende minha fome, meu riso escancarado, o movimento suave do meu corpo em sua direção. A pantera se acomoda na imensidão do sofá revelando toda sua nudez, pronta para me atacar. E o Neruda continua espiando e outro avião vem se aproximando e a torneira da pia da cozinha não para de pingar e o homem do conserto que não veio. Ainda bem.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Previsão do tempo

Acordei nublada
Melancólica manhã sem sol
Umidade impregnada na retina
Cinza luz emerge das coisas
Despertei em névoas
A procura de uma réstia de sol
Um fiapo de azul




sábado, 13 de junho de 2015

Urso

Queria permanecer atada à cama, 
dormir por dias, meses. 
Hibernar como fazem os ursos 
e só despertar no florescer da primavera  
com sua cara entre as minhas pernas.



sexta-feira, 12 de junho de 2015

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Ah, o amor!


Tudo começou com uma paquera despretensiosa, eu tinha lá meus motivos para não me envolver, mas aí veio um fim de semana, um feriado, uma semana e logo me vi assustadoramente apaixonada. Não hesitei, fiz as malas, encaixotei a mudança e cá ainda estou. Oito anos de um relacionamento íntimo e sincero, feito de altos e baixos, risos e lágrimas, surpresas e tédio.

Como em toda grande história de amor foi preciso calma e persistência, entender seus humores, curvas e desvios, rajadas de vento, sua dinâmica, seu traçado único, seu modo de falar. Afinal, só se ama o que se conhece.

Abrir mão de algumas coisas não tão importantes ou relevantes foi fundamental. Imprescindível despir a roupa antiga e nua encontrar outra roupa ou carapuça que me servisse, que combinasse com suas paisagens.

E ela me sorriu. Encheu minha vida com novos amigos, paixões, lugares, afazeres impensáveis, matizes de cinza e azul.

Conquistada? Nunca. É preciso conquistá-la a cada manhã sonolenta com o sol a pino na Paulista, em tardes de congestionamento recorde, na garoa das madrugadas, na confusão das marginais, no verde do Ibirapuera.  É preciso refazer os votos, sempre, cotidianamente, a cada chegada ou partida, seja por terra ou céu.

É mentira quando afirmavam que não existe amor em São Paulo. Sim, existe e é recíproco.

(Texto editado em 10/06/2015)

Foto: Roberto Oya




quarta-feira, 3 de junho de 2015

Junho

É quase inverno e ainda ardem na alma as queimaduras do verão.

Será preciso voltar à suavidade da primavera, abrir o peito, descascar a pele.


terça-feira, 12 de maio de 2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Livre-se

sê livre!
livre-se de mim

te liberto agora pequeno pássaro
das garras longas do que penso amor

não posso mais cuidar de ti
zelar teu sono
vigiar teus dias
cuidar de mim

custa-me suportar
o peso do teu corpo
o embaralhar da alma
teus olhos a zombar dos meus

sê livre para que eu possa ser também

toma pela mão tua liberdade
sobrevoa continentes

e canta alto
mas não tão alto para que eu possa ouvir


terça-feira, 28 de abril de 2015

Não chores a perda, nada nunca te pertenceu.  Nada é teu: roupa, teto, chão, comida, água, amor, tv, aquário, filho, lápis ... Nem o corpo que habitas a ti pertence! Nada te foi dado ou sequer emprestado. Tudo não passa de um aluguel que nem sempre é barato. Paga-se adiantado, sem seguro ou garantia, ao locador tempo implacável. Guarda, nada é teu! Por isso não chores a perda. As coisas, e são tantas as coisas que julgas possuir, apenas repousam provisoriamente em tuas mãos.

Catharina Suleiman




domingo, 26 de abril de 2015

Desejo

Desejei tua morte como um dia desejei teus olhos fixos, claros, postos só em mim, mas era pouco. 

Desejei tua morte como desejava tua boca precisa, pronta para o meu esperado sim, mas ainda era muito pouco. 

Então, desejei tua morte como desejava em tuas ausências teu corpo colado, dentro, se desfazendo sobre o meu. E isso foi o bastante: agora, não desejo mais tua morte, te quero vivo.




terça-feira, 21 de abril de 2015

O fim justifica os meios

Amanhã vou acordar tarde, bem tarde, perto do meio dia e vou tomar banho com aquele sabonete cheiroso, vou acender uma vela, ouvir Radiohead em loop e te ligar. Vai ser uma ligação muito, muito longa, sem me preocupar com o preço, sem me preocupar com o tempo, tudo pra te contar sobre o meu novo trabalho, falar sobre o último jogo do Botafogo, o vestido novo, de como é dificil  respirar nesta cidade que arde, vou reclamar da minha mãe, da cerveja que não estava tão gelada assim, do aluguel que subiu, do ônibus lotado e sempre atrasado, vou dizer bobagens, te contar piadas, meus sonhos da noite passada, o último livro que li, o filme de domingo. Vai ser tudo tão leve, doce, risonho e quando você estiver embriagado, tonto com tanta novidade com tanto assunto sem pé e sem cabeça, carente de nexo e lógica vou te dar a grande notícia, vou te dizer entre assobios, como se fosse música, mas com precisão de um golpe de judô: ainda te amo.


Karina Yashagin


sábado, 18 de abril de 2015

Manhã de sábado


- Abrir as janelas
- Lavar o rosto
- Estender a roupa
- Sorrir
- Escrever um poema
- Responder mensagens
- Esquecer mágoas
- Arrumar a mala
- Assar o peixe
- Não arrancar a casca do machucado
- Dançar com o rádio ligado
- Não desejar o mal
- Ver o sol
- Preparar-me para o novo
- Ser inteira


quinta-feira, 16 de abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

Indiferença

Tens meus olhos e meu corpo
à distância do esticar de teus braços
porém não te avisto além das lembranças
não me tocas nem ao mesmo por acaso.

Persistes pulsante no caminho do esquecer
no doer de velhas feridas 
em noites sem descanso
no desatar inevitável de nossos laços.


Rochelle Costi

sábado, 14 de março de 2015

Superpoderes

Ele me lê
Nas linhas das mãos
nas entrelinhas 
movimento lento dos cílios

Ele advinha
o que estará na página em branco
meu próximo capítulo 
sorriso tímido no escuro do quarto

Ele pressente
a música que arrepia a pele
poesia guardada
o fim que nos espera.

terça-feira, 10 de março de 2015

Autoengano

Minto quando digo que passou, quando espalho alto em mesas de bar que não te quero mais. É mentira, tudo mentira.  Finjo para mim mesma, o tempo todo, sem pudor, que não tenho nada além de suaves cicatrizes. Maquiagem. Mantenho o corpo trancado, afetos costurados, cama desfeita, luz apagada, foto tua no desktop do computador. Ainda ouço In my life todas as manhãs e ontem mesmo fiz aquele risoto que tanto te agrada. Nada mudou. Aguardo noticias, mensagens, recaídas, telefonemas, pressentimentos.  Espero o fim daquela conversa, que no fundo nunca foi uma conversa, apenas um rascunho mal feito do que deveria ter sido uma conversa. Monólogo. Espero no vazio das palavras que nunca são ditas. Minto em outros braços, no roçar de outras coxas que já me veio o esquecimento, que já não há mais beijos para ti em minha boca. Confesso, não nego, que te quis quase sem querer e mais do que a qualquer outro. Atada a ti por correntes infinitas e invisíveis. Minha nudez ainda é tua. Sonhos, devaneios, sentidos, desejos, fantasias estampam tua marca. Terça-feira. Tua ausência preenche todas as frestas, o sol não me aquece, não pode me alcançar.  Ainda estou em mil pedaços e te espero para me recompor.

Texto publicado em http://confrariadostrouxas.com.br/2013/07/autoengano.html

quinta-feira, 5 de março de 2015

Divagações de um suicida

Preciso morrer amanhã. É certo, não me restam dúvidas, amanhã será o dia de minha morte.

Talvez porque a previsão seja de sol ou talvez simplesmente porque amanhã seja uma quinta-feira. Adoro quintas-feiras, sempre foram o meu dia da semana predileto.


Então vou morrer amanhã. Ainda não me decidi como, mas já escolhi o lugar. Vai ser aqui em casa mesmo, na sala, no sofá vermelho. O mesmo sofá vermelho que foi testemunha de muitas noites de insônia, de amor,  de agonia muda diante da televisão, será agora a única testemunha da minha morte.


Já me decidi que quero uma morte limpa, rápida e indolor. Nada de muito sangue pois toda vez que vejo sangue tenho vontade de desmaiar e não posso desmaiar no meio da minha própria morte. Não posso perder a melhor parte. Quero ver e sentir tudo direitinho, afinal, comentam por aí que só se morre uma vez.


Gostaria mesmo era de morrer como minha mãe, que morreu sentada junto à mesa da cozinha observando a água para o chá ferver e viu sua vida se exaurindo à medida que escapava a fumaça pelo bico da chaleira. Morreu feliz e bem velhinha minha mãe e hoje deve estar no meio de uma plantação de chá, cercada de querubins.


Já meu pai morreu de desastre de avião com mais de uma centena de pessoas e eu fico imaginando como será morrer acompanhado de uma multidão. Será que sobem (ou descem) todos de mãos dadas em fila indiana ou viajam na mesma direção sem se tocarem ou se verem como fazem as pessoas que pegam o mesmo trem na Estação da Sé ás 18 horas? Acho que só morrendo pra saber.


A morte, penso, seja lá como for o modo que se morre, é algo muito simples, é como apertar o off do aparelho de som quando se resolve dormir ou tirar a torradeira da tomada quando o pão já se encontra bem tostado.


Mas diabos é que não consigo decidir como morrer! Preciso morrer amanhã e não tenho a mínima ideia de como proceder. Achei que fosse mais fácil, que uma vez tomada a decisão de deixar este mundo e partir para o além, escolher o modus operandi seria uma escolha tão natural e lógica como a própria morte. O problema são os inúmeros detalhes, uma infinidade deles que só servem para dificultar a tarefa de por em prática a decisão já tomada.


Acho que vou precisar de mais tempo para preparar minha morte, acho que não vai dar para ser amanhã, pois toda esta história está ficando muito complexa e nunca fui muito bom em resolver coisas complexas, elas sempre me deixam nervoso, muito nervoso, quase em pânico.


Preciso morrer amanhã, mas vou adiar meus planos para depois de amanhã ou quem sabe para a semana que vem ou quem sabe ainda na próxima primavera. Adorei a primavera, sempre foi minha estação do ano predileta.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Uma e cinquenta e três


Quero tua carne, só ela. Agora. Nada de afetos, corte todo o açúcar e venha despido de alma. Só me interessa a matéria: objeto nu e cru. Saliva, gemido ecoando na nuca. Tua língua percorrendo meu corpo, serpenteando a planície das minhas costas, entranhada entre minhas pernas, umedecendo meus sentidos. Arrepios quentes. Moreno, rígido, ágil. Serás meu enquanto for tua, sentindo apenas o que sente a pele.

Depois dos desejos satisfeitos, me abrace, se perca nos meus olhos como antes se perdera em meu corpo e só então me ame. Suavemente.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Oceano

Prendo-me aos pequenos detalhes: a cicatriz na perna, a ruga sob os lábios, o formato das unhas, teus pés. Decoro as imperfeições como se decorasse constelações, conto as pequenas manchas na pele, meu rosário preferido. Examino atentamente tuas costas e me imagino como Eva, nascendo de tuas costelas. Resisto aos teus silêncios, me entrego aos teus sorrisos e me perco no espaço ínfimo que separa nossos corpos. Qualquer distância por menor que seja é grande demais, oceano separando continentes.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Caminheiro

Se deixas de me amar, lentamente também mato meu amor por ti.  Se me esqueces, em poucos dias memórias tuas já não tenho. Se queres ir embora, vá. Mas ao partir queime todas as pontes, apague rastros, destrua as trilhas, esqueça atalhos. Se pensares em voltar procure novos caminhos, abra novas estradas,  por onde andavas já não me encontrarás. Se tens alguma dúvida não se aproxime, mantenha-se distante e seguro. A hesitação aqui não tem mais pouso, o talvez já não me prende, é a certeza agora, somente ela, que me seduz.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Não te esqueci


Pés descalços de unhas vermelhas no quarto em que você nunca esteve e nunca estará, mas permanece mergulhado na luz difusa de sua existência e em miudezas que insisto em colecionar. O peso do não ser e do não estar é o que machuca, queima. Ferro e fogo em carne viva me lembram a todo momento que o milagre que há tempos espero jamais irá se cumprir. Toda espera tem seu preço, tem seu tempo, tem sua dor e sua impaciência e a minha se dissolve em dilúvios embaixo do chuveiro e corridas de táxi solitárias em noites embriagadas de álcool, desejo e saudade.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Limpando a agenda de telefones

Aprendi que as pessoas ficam em nossas vidas o tempo necessário, nem um minuto a mais ou a menos. Elas se vão quando é hora de ir, quando não há nada mais a acrescentar ou transmitir. Às vezes é doído, às vezes é um alívio e às vezes elas vão se afastando tão lentamente que quando você percebe leva um susto porque elas simplesmente não estão mais lá onde costumavam estar. Então fica um pouco de saudade, um outro tanto de lembranças, um objeto esquecido, um ensinamento qualquer e a vida segue seu curso natural: pessoas chegam, pessoas partem. Algumas iluminam por uma fração de segundo nosso existência para em seguida desaparecerem e outras ficam por muito, muito tempo que até parece que ficaram para sempre. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Fevereiro

Haverá sempre outra folia, 
Um novo brilho,
Outro amor.

Haverá sempre outro perfume,
Uma nova música,
Outra fantasia.

Haverão muitas outras quartas-feiras
Cinzas, azuis e amarelos
Sempre à espera do próximo Carnaval.





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Paura

Tenho medo, medo de me perder em teus labirintos de braços e pernas entre a minha boca e a tua. Tenho medo de encontrar meu norte, de fazer minhas malas, encaixotar livros e papéis e ser estrangeira em terra tua. Tenho medo de embriagada queimar meus navios, de ver o amor correspondido, o desejo recíproco e então não ter mais desculpas. Tenho medo do que pode acontecer se a porta se abrir e for inevitável não mais fechá-la. Tenho medo de não retornar de ti.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

domingo, 4 de janeiro de 2015

Janeiro

Adeus ano velho e tudo que já não quero, que não me serve mais:
Roupas usadas, gastas, manchadas pelo tempo
Solidão errante das manhãs de domingo
Tristezas ruminadas com café
Risos forçados
Estupidez estampada na cara
Passos bêbados
Paixões trôpegas
Choro contido
Palavras engolidas a seco.

Que seja bem vinda a manhã de um novo ano.
Bem vindo janeiro
O novo de novo
O fazer diferente
O ser diferente
Sol ao som de rock inglês
Minha mão descansando na sua perna
Beijo na pálpebra
Criança correndo
Os braços do meu pai
Sorvete de pistache
Banho mormo dissolvendo o cansaço.

Na manhã do novo ano bem vinda seja a esperança
A sensação ilusória de que tudo será renovado
A alegria da novidade que dura pouco
O suficiente para alcançarmos fevereiro.