segunda-feira, 15 de maio de 2017

Yellow

Ela quer se mudar e carrega apenas seu coração apertado em uma mala de mão. Ela está a procura de um canto qualquer e seguro onde possa ficar por uma noite e depois pela vinda inteira, um lugar onde possa criar ervas e pendurar quadros em uma parede amarela. Mas ela não consegue encontrar a saída e começa a desconfiar que talvez nem exista saída, que viver não seja nada além do que tatear objetos em um quarto escuro. Talvez não exista nada ali na frente e sejamos apenas personagens de um romance patético de um escritor fodido e bêbado. Talvez isso tudo não passe de uma grande trapaça, um perfil fake em uma rede social qualquer. Ela tem quase certeza que viver seja inventar histórias para os outros e para nós mesmos e repeti-las na frente do espelho tantas vezes quanto forem necessárias para que se tornem verdades. Ela procura por saídas, mas talvez não existam mesmo saídas, somente tímidas frestas de luz iluminando o quarto escuro.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Depois

Teu cheiro toma conta de tudo: lençol, pele e cabelo. Escorre entre minhas pernas e seios, enfeita meus braços, brilha em meus olhos, salta de minha boca. Fui com teu cheiro à padaria, peguei o metrô, enfrentei a fila do banco. Ninguém notou ele em mim, ninguém viu as cores com que ele me pinta a alma, ninguém se embriagou como eu me embriago. Passei o dia mergulhada, transbordando teu cheiro tão íntimo do meu. Teu cheiro em meu corpo, terra molhada, encharcada de chuva.

sábado, 22 de abril de 2017

Cor de alma



Amarelo manga escorrendo pelas mãos
Vermelho tulipa na banca da esquina

Rosa laço de fita da menina
Negro teus olhos bêbados
Verde broto do pé de jabuticaba
Azul montanha de Minas no outono
Roxo almofada nova na cama
Branco espuma do mar lambendo os pés
Laranja abajur antigo
Cinza nuvem encobrindo a cidade
Marrom cachecol de tricô

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Intimidades de uma biblioteca

Fim de ano sempre bate aquela vontade de arrumar tudo, se desfazer do que não serve mais, abrir caminhos nos armários e na vida para as coisas novas e desta vez resolvi atacar minha estante de livros. Vender, trocar, doar, passar pra frente livros que já li e que podem ser úteis e prazerosos para outras pessoas.

Animada, comecei a separar em pilhas e listar: vender, doar, guardar. O problema que a lista não terminava nunca porque em cada livro que eu pegava para examinar era como se um portal no tempo e no espaço se abrisse.

Quantas lembranças e emoções em cada um daqueles livros!

Tem aqueles livros manuais que comprei durante a faculdade com o dinheiro suado das aulas particulares. Clássicos de filosofia do direito, direito civil e penal, códigos tantas vezes rabiscados e destrinchados.

E os livros da pós-graduação? Comprei alguns só por causa de um único capítulo indispensável para minha monografia e lá ficaram esquecidos e nunca folheados os demais capítulos.

Mudei de prateleira, atordoada com as boas lembranças de uma época tão distante e diferente da minha vida atual.

Abro um livro do Philip Roth, devorado de uma só vez em uma viagem rodoviária de seis horas, entre lágrimas de antecipadas saudades de um amor que não vingaria.

Pego um outro, agora do Evandro Affonso Ferreira, que quando emprestei para meu pai rendeu uma longa e deliciosa  conversas na mesa da cozinha acompanhadas por um bom vinho. E tem aquele da Muriel Barbery, que comprei por indicação de uma amiga querida e ao lê-lo fui capaz de sentir seu perfume e ouvir sua voz mesmo que distante.

Tenho livros que nunca li, mas que insisto em guardar porque acho que ainda vou conseguir ler e porque acredito que livros são como pessoas, aparecem para serem lidos na hora que mais precisamos deles. Na hora exata, uma página se abre e, tal como um oráculo, diz a coisa certa do jeito certo.

Descubro dois livros que ganhei de presente: um da Lygia Fagundes Teles e outro do Lourenço Mutarelli, que, por sua vez, me trariam outros dos mesmos autores. Tem um Saramago que o ex-namorado esqueceu comigo, tem os livros da Marguerite Yourcenar que vieram da casa da minha vó, tem a antologia do Neruda já velhinha, se desmanchando aos poucos, os livros do Hermann Hesse garimpados nos sebos do Centro de São Paulo na hora do almoço.

Não posso esquecer dos livros que foram de meu pai: Kundera, García Márquez, Guimarães Rosa, Veríssimo, todos lidos ainda na adolescência intercalados com a coleção de História da Filosofia do Bertrand Russell.

São tantos livros comprados em tardes solitárias em livrarias da Paulista mais pela necessidade de companhia do que pelo amor à literatura. E tem aqueles autografados e dedicados com carinho por pessoas que amo e admiro que fazem dessa minha biblioteca algo único e especial.

Assim, depois de algumas horas de não tão metódica seleção, penso cá com meus botões e concluo o que já pressentida. Cada livro da minha estante conta uma história diferente da história nele escrita, contam todos a mesma história, uma história da qual sou eu a protagonista.


Resultado: guardei todos os meus exemplares em seus devidos lugares, desejando que no próximo ano eu consiga fazer a tal desejada limpeza.

sábado, 10 de dezembro de 2016

De todos os amores que tive quase nada guardei: fotos no computador, ingressos de cinema, um amuleto, um chaveiro enferrujado, um gato, pôr do sol em Pinheiros, um beijo ao meio dia na 13 de Maio, uma passagem de volta. Dos amores que tive restaram migalhas, talvez uma digital em algum objeto perdido, uma faísca de desejo, um risco de saudade, uma canção melosa, página marcada em um livro não devolvido. De todos os amores que tive, e foram muitos que por aqui passaram, o que realmente ficou, o que cresceu e se multiplicou ao ponto de transbordar foi esta minha mania incontrolável de amar.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

26 de novembro

Porque o amor se constrói na constância do tempo, nos silêncios do quarto e até mesmo nas grandes distâncias. O amor se faz quando parece estar inerte, dormente, alheio ao mundo. Ele se finge de bobo, age na surdina, nas entrelinhas das tardes preguiçosas.


*Texto no Livro da Tribo 2016 - Dia 26 de novembro.





quarta-feira, 2 de novembro de 2016

terça-feira, 1 de novembro de 2016

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Primeiro de setembro

É quase primavera e mesmo com as mãos atadas, com o sonho desfeito e o grito contido, o coração insiste em bater. É quase primavera e mesmo com meus ouvidos e olhos cansados de tanta estupidez e dor, a esperança se faz presente, entra sorrateira pela janela e se instala tímida aos meus pés. É quase primavera e uma flor vermelha brota gloriosa, mesmo com a água escassa, mesmo com a terra dura e a sombra persistente. É quase primavera e eu não tenho porque fugir ou me render.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Mal crônico

não sei onde começo
muito menos onde termino
desconheço minhas coordenadas
lugar no tempo e espaço


percorro um emaranhado de linhas
me curvo ao acaso
obedeço meu instinto
e sigo sofrendo de infinito