sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

As coisas que realmente precisam ser ditas estão nos espaços brancos entre as palavras, entre linhas, depois do rodapé. O importante e necessário está no final do capítulo, naquele suspiro longo  enquanto se olha  a paisagem pela janela, com o dedo indicador marcando precariamente a página no livro fechado descansando sobre a perna. O que realmente importa só é dito no fim da folha, aí é que toda a obra faz sentido, tudo se revela e se desnuda, verdade definitiva.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ora, dirás,
falar com estrelas
não, não perdi o senso
no entanto digo
converso e brigo
até mesmo canto

falar com elas
é falar contigo

Laís Chaffe

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Desencontro



Enquanto ele citava Chico, ela se iluminava com Voltaire.
E quando ele andava em bando, ela solitária atravessava a rua.
E enquanto ele a esquecia, ela se refazia em outros.

sábado, 14 de janeiro de 2012


Permita-se chorar, permita-se sofrer e lamentar, mas permita-se apenas pelo tempo necessário. Não alimente ou prolongue a dor, a raiva e a tristeza, não arranque a casca da ferida como criança cutucando o joelho machucado. Deixe  elas irem embora, lentamente, e em algum momento você perceberá apenas uma leve cicatriz.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobre o amor

Gostaria de voltar ao tempo em que era possível que tu fostes embora, agora ver-te partir é impossível. Ficas aqui, sempre, grudado na minha pele, sussurrando em meus ouvidos palavras desconexas, sonhos, lembranças, cantarolando músicas que não suporto mais ouvir. Em cada canto do quarto adivinho sua figura tímida de olhos grandes e inquietos.

O cheiro do cipreste depois da chuva, a grama aparada, as mãos finas como papel de seda de minha mãe que eu segurava no momento que lhe perguntei como é o amor e ela sem hesitar, sem rodeios, respondeu: “amar é pensar”. Hoje sei que amar é mais do que pensar, amar é não poder ver-te ir embora.

Mas amar também é consertar. Tens razão quando me dizes que quero consertar o mundo, salvar quem não precisa ser salvo, quem nem ao menos quer ser salvo. Como naquele inverno que caístes com o carro no córrego gelado e eu aos prantos, à margem queria pular na água para te salvar sem se quer notar que a água não te alcançava a canela.

Quero consertar o mundo porque não posso consertar a mim mesma, minhas pernas tortas e finas, meu jeito desgovernado. Impossível salvar-me de mim mesma, da minha propensão ao abismo e às epopeias.

Desde criança tenho medo de escadas, meus pesadelos são uma grande sucessão de escadas íngremes que sobem e descem sem direção, num zique-zaque frenético e desconcertante porém logo que te conheci, logo que descobristes a mim e eu a ti, sonhei que me carregavas no colo enquanto descíamos uma longa e tortuosa escada. Me senti salva, me senti grata e desde então não consinto que partas e não consigo partir.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Simplesmente sorria.
Delicie-se com a paisagem.
Tudo na vida é apenas passagem.

sábado, 15 de outubro de 2011

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Crer, torcer, distorcer

Hilário Franco Júnior*

Seguir determinado clube é acreditar, mesmo contra evidências racionais, que ele vá vencer. Como o futebol é jogo de muitos erros (sessenta passes errados numa partida é algo comum no Brasil) e pouca pontuação (mais de três gols em uma partida não é frequente), mantém o torcedor em constante expectativa. Impotente na arquibancada, o adepto de um clube crê que sua fé e seu estímulo possam colaborar para que seus ídolos levem a divindade comum à vitória. É significativo em português o uso da palavra "torcer" para designar o ato de manifestar adesão entusiasmada à trajetória esportiva de um clube. Conta-se que a origem da acepção futebolística do termo vem do hábito de moças simpatizantes do Fluminense contorcerem durante as partidas pequenas fitas roxas, semelhantes às usadas na cintura pelo goleiro do clube nos anos 1914-22, Marcos Carneiro de Mendonça. De toda forma, uma das acepções dicionarizadas de "torcer" é "desvirtuar o significado ou a proporção real de algo". No mundo do futebol, é interpretar os fatos segundo a emoção.

Torcer é sempre distorcer, portanto. E não apenas o presente, a partida que se tem diante dos olhos, no estádio ou na televisão. É também adulterar o passado. Até hoje, no gol de desempate na final da Copa da Mundo de 1966 a bola entrou, de acordo com os ingleses, e não entrou, segundo os alemães (...).Acima de tudo, torcer é tentar distorcer o futuro, interferir nele. È esperança de “alterar o destino”, sentido que a palavra tem na língua portuguesa desde o século XIII.(...)

Assim como nos primeiros séculos os cristãos exultavam com os fracassos das divindades pagãs, no futebol torcer contra é tão freqüente e importante quanto torcer a favor. Em mais de 34% das vezes, aliás, a própria escolha de um clube ocorre por oposição ao clube de alguém afetivamente próximo, pai, irmão, amigo. (...)

Torcer contra ou a favor é enorme dispêndio de energia psíquica, é ato de fé que consome o sujeito. (...)

Enfim, é possível entrever o significado do futebol para cada povo por meio das palavras que expressam o ato de apoiar o time escolhido. Análise que pode ensinar muitas coisas, desde que não esqueça que a intensidade do sentimento religioso é muito pessoal, e no caso do futebol proporcional à paixão clubística. Para o fanático fluminense Nelson Rodrigues, “o que nós procuramos no futebol é o sofrimento. As partidas que ficam, que se tornam históricas, são as que doem na carne, na alma”. É isso que faz algumas vezes a passio do fiel ser transferida para o oficiante. É comum, como se sabe, um jogador durante certo tempo encarnar o clube, ser a figura mais representativa dele, por isso adorada, e em outros momentos ser rejeitada, vaiada, xingada, fisicamente agredida. Fenômeno semelhante ao da religiosidade popular convencional. A imagem de um santo é reverenciada enquanto o devoto acredita que ela atende seus pedidos, porém é colocada de ponta-cabeça, escondida, quebrada, quando não mais satisfaz as expectativas que se depositam nela.(...)

Se as torcidas cantam, agitam bandeiras, gritam slogans, antes que seus times entrem em campo, é porque se exibem para si mesmas, incentivam a si próprias, tentam intimidar as outras. Não é por impropriedade discursiva que se diz que "meu" time ganhou do "seu", que "meu" Deus é superior a todos os outros. Os pronomes possessivos revelam aí profundo sentimento de identificação, seja com a divindade clubística, seja com a divindade convencional. Em última análise, todo adepto do futebol torce para si próprio devido a uma identificação com o clube tão enraizada quanto a de qualquer outro fiel que encontro no seu Deus a si mesmo. A distorção egocêntrica está presente nos dois casos e pode atingir dimensões paranóicas, dependendo das circunstâncias nas quais tal sentimento é exteriorizado. (...)

De fato, futebol não é sistema religiosos autônomo e coerente de representações, crenças e práticas, é antes mosaico constituído de peças de variadas procedências. Ele não propõe uma visão transcendental do mundo, um futuro melhor a seus seguidores. Isso é impossível, pois a vitória ininterrupta de um deus provocaria a extinção dos outros e, por conseguinte, a do próprio vencedor. Deseja-se a destruição do rival, mas precisa-se dele para que a existência da própria divindade

* “A dança dos deuses – Futebol, sociedade, cultura”, pag. 292 e seguintes.

domingo, 14 de agosto de 2011

Felipe

Espia, meu filho
O mundo por detrás das grades do portão
Espia o cão, a moto, a grama
O azul que tudo recobre
Espia o som do relógio
As revistas de bordado
Os pratinhos chineses

Espia, meu filho
As marcas nas mãos do avô
Espia o canto escuro da gaveta
A fechadura
A banana
Espia o sorisso da tia
O cheiro da cozinha da avó

Espia tudo do jeito que tudo deve ser espiado
Espia devagar, com calma e alegria
Absorva a essência do espiado e guarde em silêncio

Espia o correr do tempo que também te espia

sábado, 13 de agosto de 2011

Primeiro


O brinco, o colar, a hora e o juízo

Tudo perdido na infinidade de luzes acessas

No sol que escapa da pele sem trégua

No mar que escorre do rosto



Perdida assim em algum lugar incerto e não sabido

Onde os aviões voam em silêncio

Onde o meu corpo se abre em primavera

Tal como a jabuticabeira menina