sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Intimidades de uma biblioteca

Fim de ano sempre bate aquela vontade de arrumar tudo, se desfazer do que não serve mais, abrir caminhos nos armários e na vida para as coisas novas e desta vez resolvi atacar minha estante de livros. Vender, trocar, doar, passar pra frente livros que já li e que podem ser úteis e prazerosos para outras pessoas.

Animada, comecei a separar em pilhas e listar: vender, doar, guardar. O problema que a lista não terminava nunca porque em cada livro que eu pegava para examinar era como se um portal no tempo e no espaço se abrisse.

Quantas lembranças e emoções em cada um daqueles livros!

Tem aqueles livros manuais que comprei durante a faculdade com o dinheiro suado das aulas particulares. Clássicos de filosofia do direito, direito civil e penal, códigos tantas vezes rabiscados e destrinchados.

E os livros da pós-graduação? Comprei alguns só por causa de um único capítulo indispensável para minha monografia e lá ficaram esquecidos e nunca folheados os demais capítulos.

Mudei de prateleira, atordoada com as boas lembranças de uma época tão distante e diferente da minha vida atual.

Abro um livro do Philip Roth, devorado de uma só vez em uma viagem rodoviária de seis horas, entre lágrimas de antecipadas saudades de um amor que não vingaria.

Pego um outro, agora do Evandro Affonso Ferreira, que quando emprestei para meu pai rendeu uma longa e deliciosa  conversas na mesa da cozinha acompanhadas por um bom vinho. E tem aquele da Muriel Barbery, que comprei por indicação de uma amiga querida e ao lê-lo fui capaz de sentir seu perfume e ouvir sua voz mesmo que distante.

Tenho livros que nunca li, mas que insisto em guardar porque acho que ainda vou conseguir ler e porque acredito que livros são como pessoas, aparecem para serem lidos na hora que mais precisamos deles. Na hora exata, uma página se abre e, tal como um oráculo, diz a coisa certa do jeito certo.

Descubro dois livros que ganhei de presente: um da Lygia Fagundes Teles e outro do Lourenço Mutarelli, que, por sua vez, me trariam outros dos mesmos autores. Tem um Saramago que o ex-namorado esqueceu comigo, tem os livros da Marguerite Yourcenar que vieram da casa da minha vó, tem a antologia do Neruda já velhinha, se desmanchando aos poucos, os livros do Hermann Hesse garimpados nos sebos do Centro de São Paulo na hora do almoço.

Não posso esquecer dos livros que foram de meu pai: Kundera, García Márquez, Guimarães Rosa, Veríssimo, todos lidos ainda na adolescência intercalados com a coleção de História da Filosofia do Bertrand Russell.

São tantos livros comprados em tardes solitárias em livrarias da Paulista mais pela necessidade de companhia do que pelo amor à literatura. E tem aqueles autografados e dedicados com carinho por pessoas que amo e admiro que fazem dessa minha biblioteca algo único e especial.

Assim, depois de algumas horas de não tão metódica seleção, penso cá com meus botões e concluo o que já pressentida. Cada livro da minha estante conta uma história diferente da história nele escrita, contam todos a mesma história, uma história da qual sou eu a protagonista.


Resultado: guardei todos os meus exemplares em seus devidos lugares, desejando que no próximo ano eu consiga fazer a tal desejada limpeza.