quinta-feira, 7 de julho de 2016

Não passará

A violência que você pratica não é estatística
Não cabe em nenhum BO
Não vira notícia na manhã seguinte
Não fere a pele, rasga algo muito maior

Sua violência é a sua palavra cuspida na minha cara
Cortante, perfurante, contundente
Machuca sem deixar vestígios 
Queima mais forte que ferro quente

A palavra não quebra ossos
Não me deixa a boca sem dentes
Dilacera a mulher por dentro
Quer me fazer sentir menor

Sua arma palavra é o desejo
De um macho arrogante imperfeito
De destruir e possuir
O que não consegue discernir


Mas sobrevivo firme, resistente
Aos socos e pontapés de teu discurso
Levanto a cabeça e agito
No peito um coração pra lá de valente


terça-feira, 5 de julho de 2016

Gula


Lentamente, eu te devoraria todo se pudesse. Lamberia tua pele, chuparia cada um de teus ossos sem presa ou fúria. Contemplaria teu avesso, teu sangue e miúdos sobre a mesa. Sorveria cada gota de teu suor e saliva.Só pouparia teus olhos. Ah, teus olhos! Esses não são de comer, não seriam alvo da energia de meus dentes.Eles ficariam guardados em um vidro de geleia vazio, expostos na estante ou ao lado da cama no criado mudo. Talvez os trouxesse dentro da carteira, como amuleto, com a medalha de Maria em meio aos documentos.Guardaria teus olhos para jamais te esquecer, porque mesmo depois de digerido teu corpo, de nada mais restar do prazeroso banquete, em teus olhos contemplaria ainda tua alma.





segunda-feira, 4 de julho de 2016

Histórias que nunca conto - I

Pensei em me matar uma vez, era uma tarde azul como esta. Não havia nada, só um sol ardido que não combinava com nada, que não me deixava enxergar nada além da dor. Fiquei segundos, minutos, talvez horas mirando o calibre 22 sobre a mesa. No limite entre a vida e a morte o tempo não importa e por isso não sei precisar o quanto durou aquele limbo, aquele vai não vou, aquele mar de incertezas. O dedo no gatilho, a cabeça em lugar nenhum. É, não se pede pra nascer, mas naquele dia descobri que viver é uma escolha. Qualquer pessoa que se encontra naquela situação em que  me encontrava, que sentiu o frio do cano da arma, sabe que tudo é apenas uma questão de escolha, um pequeno gesto e "bum!", a eternidade logo ali. Escolhi viver. Se tomei a decisão acertada, ainda não sei dizer ao certo, talvez nunca saiba, mas agora não tem volta. Toda pessoa deveria viver um momento como esse e ter o direito de escolher e daí em diante não poderia culpar mais ninguém pelo seu sofrimento. Não se pede para nascer, mas se pede e se escolhe viver.