quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Quem parte e se reparte sempre fica com a melhor parte



Parto de teus braços
aparto-me de outros


Partindo e me repartindo
deixo com aperto

em cada partida
parte de mim em todo porto

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Statu quo


E o que se deu naquela noite não foi nenhum acontecimento, muito pelo contrário, foi um desacontecimento. Foi como se uma grande borracha tivesse passado com força por cima de tudo, apagando todos os rastros, ao menos os visíveis, de tudo que fora, mas não deveria ter sido e que agora, já não era mais, como se nunca, nunca houvesse existido. Porém, todos sabiam que nada mais, nunca mais, seria igual porque qualquer sopro pequeno de vento, por menor que seja, sempre balança um galho, derruba uma folha, acaricia um rosto.

Bela Vista

Vai o amor, fica o vício. Fica uma paisagem qua aos poucos se esquece, Pearl Jam, olhos. Fica o cheiro no vestido, o vinho na geladeira, um sorriso. E fica ainda um monte de quinquilharias perdidas pelo caminho: dobras no lençol, pratos sujos na pia, luz que invade a sala, fantasia não realizada, um poema que não será lido, saudade, uma promessa não cumprida. Vai o amor e mesmo assim ainda fica um pouco de amor no fundo do frasco vazio. 


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Blue monday

A segunda-feira te joga  na cara tudo que querias esconder com a alegria desconcertante da sexta, o vinho do sábado, a preguiça exagerada do domingo. Há somente farelos de pão pela casa, a pia cheia de louça suja, a desordem do quarto, tua cara amassada. A segunda-feira não perdoa teus erros e adiamentos, exige urgência: há que se apertar a gravata, calçar os gastos sapatos do cotidiano e caminhar, caminhar.  Ela expõe tua miséria, as contas a pagar, tua ressaca, tuas perdas. Não tens escapatória. Querias viver uma semana repleta de dias que não fossem segundas-feiras, mas é preciso sempre um recomeçar, mesmo que seja doloroso. Então encare-a de frente e aproveite mais esta nova chance, toda segunda-feira é ano novo, chance de ser feliz, de se refazer, parar de fumar, começar o regime, retomar a academia, encontrar novo amor e se entregar de novo ao novo da vida.



sábado, 9 de janeiro de 2016

Receita para esquecer

A arte do esquecer requer habilidade e dedicação. Não se aprende como se aprende tantas outras coisas em dez lições, não tem curso intensivo, nem sequer apostila. É preciso muito estudo, tempo, disciplina, vigília constante. Algumas pessoas são mais propícias ao esquecimento, outras a medida que a idade avança tornam-se doutores, esquecem pequenas e grandes coisas, mas a maioria de nós, em condições normais de temperatura e pressão, não possui tal dom e esquecer é quase um tormento, uma tortura, qualquer coisa miúda tira toda concentração e coloca dias de trabalho a perder. Portanto, se estiver determinado em se superar na grande arte do esquecer, evite rádios de MPB, perfumes com notas cítricas, fotografias, poemas do Leminski, evite a todo custo as ruas de Pinheiros (passe por elas de olhos fechados se for inevitável), não coma pastel de Belém ou pizza de calabresa, doe aquela camiseta surrada de sua banda de rock preferida, apague recados antigos no celular, não acesse redes sociais, vá ver outro mar que não seja o da Bahia, compre um sofá novo, monitore seus pensamentos e a qualquer sinal de fracasso tire um cochilo, mas não sonhe, por favor, não sonhe. Sonhar não é para principiantes.