sábado, 10 de dezembro de 2016

De todos os amores que tive quase nada guardei: fotos no computador, ingressos de cinema, um amuleto, um chaveiro enferrujado, um gato, pôr do sol em Pinheiros, um beijo ao meio dia na 13 de Maio, uma passagem de volta. Dos amores que tive restaram migalhas, talvez uma digital em algum objeto perdido, uma faísca de desejo, um risco de saudade, uma canção melosa, página marcada em um livro não devolvido. De todos os amores que tive, o que realmente ficou foi esta minha mania incontrolável de amar.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

26 de novembro

Porque o amor se constrói na constância do tempo, nos silêncios do quarto e até mesmo nas grandes distâncias. O amor se faz quando parece estar inerte, dormente, alheio ao mundo. Ele se finge de bobo, age na surdina, nas entrelinhas das tardes preguiçosas.


*Texto no Livro da Tribo 2016 - Dia 26 de novembro.





quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Do avesso


terça-feira, 1 de novembro de 2016

A paixão e sua fauna


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Primeiro de setembro

É quase primavera e mesmo com as mãos atadas, com o sonho desfeito e o grito contido, o coração insiste em bater. É quase primavera e mesmo com meus ouvidos e olhos cansados de tanta estupidez e dor, a esperança se faz presente, entra sorrateira pela janela e se instala tímida aos meus pés. É quase primavera e uma flor vermelha brota gloriosa, mesmo com a água escassa, mesmo com a terra dura e a sombra persistente. É quase primavera e eu não tenho porque fugir ou me render.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Mal crônico

não sei onde começo
muito menos onde termino
desconheço minhas coordenadas
lugar no tempo e espaço


percorro um emaranhado de linhas
me curvo ao acaso
obedeço meu instinto
e sigo sofrendo de infinito


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Não passará

A violência que você pratica não é estatística
Não cabe em nenhum BO
Não vira notícia na manhã seguinte
Não fere a pele, rasga algo muito maior

Sua violência é a sua palavra cuspida na minha cara
Cortante, perfurante, contundente
Machuca sem deixar vestígios 
Queima mais forte que ferro quente

A palavra não quebra ossos
Não me deixa a boca sem dentes
Dilacera a mulher por dentro
Quer me fazer sentir menor

Sua arma palavra é o desejo
De um macho arrogante imperfeito
De destruir e possuir
O que não consegue discernir


Mas sobrevivo firme, resistente
Aos socos e pontapés de teu discurso
Levanto a cabeça e agito
No peito um coração pra lá de valente


terça-feira, 5 de julho de 2016

Gula


Lentamente, eu te devoraria todo se pudesse. Lamberia tua pele, chuparia cada um de teus ossos sem presa ou fúria. Contemplaria teu avesso, teu sangue e miúdos sobre a mesa. Sorveria cada gota de teu suor e saliva.Só pouparia teus olhos. Ah, teus olhos! Esses não são de comer, não seriam alvo da energia de meus dentes.Eles ficariam guardados em um vidro de geleia vazio, expostos na estante ou ao lado da cama no criado mudo. Talvez os trouxesse dentro da carteira, como amuleto, com a medalha de Maria em meio aos documentos.Guardaria teus olhos para jamais te esquecer, porque mesmo depois de digerido teu corpo, de nada mais restar do prazeroso banquete, em teus olhos contemplaria ainda tua alma.





segunda-feira, 4 de julho de 2016

Histórias que nunca conto - I

Pensei em me matar uma vez, era uma tarde azul como esta. Não havia nada, só um sol ardido que não combinava com nada, que não me deixava enxergar nada além da dor. Fiquei segundos, minutos, talvez horas mirando o calibre 22 sobre a mesa. No limite entre a vida e a morte o tempo não importa e por isso não sei precisar o quanto durou aquele limbo, aquele vai não vou, aquele mar de incertezas. O dedo no gatilho, a cabeça em lugar nenhum. É, não se pede pra nascer, mas naquele dia descobri que viver é uma escolha. Qualquer pessoa que se encontra naquela situação em que  me encontrava, que sentiu o frio do cano da arma, sabe que tudo é apenas uma questão de escolha, um pequeno gesto e "bum!", a eternidade logo ali. Escolhi viver. Se tomei a decisão acertada, ainda não sei dizer ao certo, talvez nunca saiba, mas agora não tem volta. Toda pessoa deveria viver um momento como esse e ter o direito de escolher e daí em diante não poderia culpar mais ninguém pelo seu sofrimento. Não se pede para nascer, mas se pede e se escolhe viver.


sábado, 25 de junho de 2016

Gripe

Sonho com a mão de minha mãe sobre a minha testa sentindo minha temperatura enquanto sussurra em meu ouvido, daquele jeito que só as mães sabem fazer, "fiz uma canja para você". Acordo e estou só. O quarto, o apartamento repleto de silêncio, penumbra e vazio. Tonta vou até a cozinha e na geladeira cubos de frango e legumes me olham de espreita. Calafrios e a sopa fica para amanhã. Engulo outro comprimido para a febre que persiste e para de novo dormir e sonhar. Em dias como este a solidão também se cura com aspirina.


quinta-feira, 28 de abril de 2016


terça-feira, 5 de abril de 2016

Do que não se fotogafa

Teu cheiro no meu vestido, cara inchada de sono e ressaca na manhã de domingo, aquela música dos Beatles,  o outono se insinuando nas sombras, a solidão de janeiro, sal, os arranhões da infância, teu beijo na minha testa no meio do mercado, a espera pelo telefonema, o calor que escapa do chão depois da chuva, o barulho da rua as dez da manhã, o frescor da cerveja, o carinho aconchegante do menino, a bagunça de tua casa, arrepios de açaí, meus sonhos entre o passado e o futuro, a cor imprecisa dos teus olhos, o sorriso do gato, tua língua em meu sexo, estas palavras.

Inspirado em Luana que tudo fotografa, não com máquinas, mas com a alma.




quarta-feira, 30 de março de 2016


Madrugada



sexta-feira, 11 de março de 2016

Surto


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Quem parte e se reparte sempre fica com a melhor parte



Parto de teus braços
aparto-me de outros


Partindo e me repartindo
deixo com aperto

em cada partida
parte de mim em todo porto

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Statu quo


E o que se deu naquela noite não foi nenhum acontecimento, muito pelo contrário, foi um desacontecimento. Foi como se uma grande borracha tivesse passado com força por cima de tudo, apagando todos os rastros, ao menos os visíveis, de tudo que fora, mas não deveria ter sido e que agora, já não era mais, como se nunca, nunca houvesse existido. Porém, todos sabiam que nada mais, nunca mais, seria igual porque qualquer sopro pequeno de vento, por menor que seja, sempre balança um galho, derruba uma folha, acaricia um rosto.

Bela Vista

Vai o amor, fica o vício. Fica uma paisagem que aos poucos se esquece, Pearl Jam, olhos. Fica o cheiro no vestido, o vinho na geladeira, um sorriso. E fica ainda um monte de quinquilharias perdidas pelo caminho: dobras no lençol, pratos sujos na pia, fantasia não realizada, um poema que não será lido, saudade, uma promessa não cumprida. Vai o amor e mesmo assim ainda fica um pouco de amor no fundo de um frasco vazio. 


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Blue monday

A segunda-feira te joga  na cara tudo que querias esconder com a alegria desconcertante da sexta, o vinho do sábado, a preguiça exagerada do domingo. Há somente farelos de pão pela casa, a pia cheia de louça suja, a desordem do quarto, tua cara amassada. A segunda-feira não perdoa teus erros e adiamentos, exige urgência: há que se apertar a gravata, calçar os gastos sapatos do cotidiano e caminhar, caminhar.  Ela expõe tua miséria, as contas a pagar, tua ressaca, tuas perdas. Não tens escapatória. Querias viver uma semana repleta de dias que não fossem segundas-feiras, mas é preciso sempre um recomeçar, mesmo que seja doloroso. Então encare-a de frente e aproveite mais esta nova chance, toda segunda-feira é ano novo, chance de ser feliz, de se refazer, parar de fumar, começar o regime, retomar a academia, encontrar novo amor e se entregar de novo ao novo da vida.



sábado, 9 de janeiro de 2016

Receita para esquecer

A arte do esquecer requer habilidade e dedicação. Não se aprende como se aprende tantas outras coisas em dez lições, não tem curso intensivo, nem sequer apostila. É preciso muito estudo, tempo, disciplina, vigília constante. Algumas pessoas são mais propícias ao esquecimento, outras a medida que a idade avança tornam-se doutores, esquecem pequenas e grandes coisas, mas a maioria de nós, em condições normais de temperatura e pressão, não possui tal dom e esquecer é quase um tormento, uma tortura, qualquer coisa miúda tira toda concentração e coloca dias de trabalho a perder. Portanto, se estiver determinado em se superar na grande arte do esquecer, evite rádios de MPB, perfumes com notas cítricas, fotografias, poemas do Leminski, evite a todo custo as ruas de Pinheiros (passe por elas de olhos fechados se for inevitável), não coma pastel de Belém ou pizza de calabresa, doe aquela camiseta surrada de sua banda de rock preferida, apague recados antigos no celular, não acesse redes sociais, vá ver outro mar que não seja o da Bahia, compre um sofá novo, monitore seus pensamentos e a qualquer sinal de fracasso tire um cochilo, mas não sonhe, por favor, não sonhe. Sonhar não é para principiantes.