sábado, 9 de janeiro de 2016

Receita para esquecer

A arte do esquecer requer habilidade e dedicação. Não se aprende como se aprende tantas outras coisas em dez lições, não tem curso intensivo, nem sequer apostila. É preciso muito estudo, tempo, disciplina, vigília constante. Algumas pessoas são mais propícias ao esquecimento, outras a medida que a idade avança tornam-se doutores, esquecem pequenas e grandes coisas, mas a maioria de nós, em condições normais de temperatura e pressão, não possui tal dom e esquecer é quase um tormento, uma tortura, qualquer coisa miúda tira toda concentração e coloca dias de trabalho a perder. Portanto, se estiver determinado em se superar na grande arte do esquecer, evite rádios de MPB, perfumes com notas cítricas, fotografias, poemas do Leminski, evite a todo custo as ruas de Pinheiros (passe por elas de olhos fechados se for inevitável), não coma pastel de Belém ou pizza de calabresa, doe aquela camiseta surrada de sua banda de rock preferida, apague recados antigos no celular, não acesse redes sociais, vá ver outro mar que não seja o da Bahia, compre um sofá novo, monitore seus pensamentos e a qualquer sinal de fracasso tire um cochilo, mas não sonhe, por favor, não sonhe. Sonhar não é para principiantes.

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