terça-feira, 21 de julho de 2015

Das coisas ditas mesmo quando não ditas

Eu te amo. Nunca te disse isso assim com todas as letras, nunca escrevi meu amor em guardanapos de papel em uma mesa de bar ou em mensagem de celular no meio da madrugada. Era tanto amor que preferi me calar, tinha tanto a dizer que fiquei muda, sufocada, repleta de palavras e seus significados. Mas te digo meu amor silenciosamente em cada reencontro, em cada despedida. Digo "eu te amo" quando na ponta dos pés fecho os olhos para melhor sentir teu abraço, quando admiro tuas mãos coladas as minhas, quando tento em vão te descobrir na multidão que transita pela avenida. Digo "te amo muito" na umidade do meu sexo, no olhar admirado que lanço sobre teu corpo, no beijo em que te devoro. No momento que pareço morrer em teus braços todos meus sentidos gritam ritmados o meu amor. Te disse "eu te amo" na frente do espelho em meio aos vapores do banho ou com a maquiagem borrada da festa, em noites de insônia, em todas as vezes que a cadeira a minha direita no cinema permaneceu vazia. Sussurrei meu amor por ti até mesmo em outros homens que busquei na tentativa infeliz de apagar-te do meu desejo. Berro meu amor nas consultas ao tarô, na leitura diária do teu horóscopo e em todas as vezes que espero uma ligação qualquer, uma mensagem ou sinal que diga que tu me amas também.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Poeminha invernal

O inverno pra mim é ácido:
Ácido retinoico no rosto,
Ácido ascórbico contra o resfriado.
E me lambuzo de filtro solar
Enquanto tomo limonada.


Dez minutos

É preciso mesmo deixar a cama, abrir as janelas e encarar o sol? É preciso mesmo desfazer o abraço, pintar o rosto e trabalhar? É preciso comer o pão, ir ao correio, pagar impostos, vigiar o relógio? Não, não é preciso. Necessário é sonhar, beijar teus lábios, despentear os cabelos, ficar de longe ouvindo o barulho da rua e só por mais dez minutos adiar todas as urgências do dia, gozar da liberdade inventada.

Foto: Luis Gallo