terça-feira, 16 de junho de 2015

E o homem do conserto que não veio

A torneira da pia da cozinha não para de pingar. O cheiro de tinta da parede se mistura ao cheiro da tinta do meu cabelo e no pé da escada analisando seu corpo todo esticado tentando colocar a cortina no trilho é impossível não sentir calafrios de prazer. Seu corpo se esticando, rígido e forte lembra uma pantera pronta para atacar a cortina, o trilho, a vidraça, o avião que passa lá fora. Olho para uma caixa de livros no canto da sala e o meu Neruda cansado de tantas leituras, parece tentar espiar a confusão que fazemos aqui: o amontoado de caixas, móveis, roupas, as paredes recém pintadas de azul como o céu lá fora cortado pelo avião que acabou de passar e torneira da pia da cozinha que não para de pingar. Engraçado, parece que foi ontem nossa primeira taça de vinho em copo de requeijão, a primeira vez que acordei ao seu lado ainda tonta, embriagada de gozo e álcool, a conversa despretensiosa sobre o futuro, lembro da claridade, da lua ou do poste, entrando pela janela ainda sem a cortina que você tenta instalar agora e da impressão de haver enfim, encontrado meu lugar. Sinto fome, mas a geladeira aberta e vazia revela toda sua imensidão. Olho para você que entende minha fome, meu riso escancarado, o movimento suave do meu corpo em sua direção. A pantera se acomoda na imensidão do sofá revelando toda sua nudez, pronta para me atacar. E o Neruda continua espiando e outro avião vem se aproximando e a torneira da pia da cozinha não para de pingar e o homem do conserto que não veio. Ainda bem.

3 comentários:

  1. que venha o homem da torneira e que ele seja bem sarado e que recite um poema do neruda pra vc, rsrsrs
    gostei do texto, beijos

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  2. Fluente texto, perfeita descrição do ambiente e situação de mudança, bem como das sensações. Parabéns. Beijo.

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