sábado, 27 de junho de 2015

Décimo nono andar

Parte de mim ainda olha aquela paisagem. Teu corpo deslizando pelo quarto, multidão de potes de vidro,  livros que jamais serão lidos novamente, teus olhos apertados diante da tela do computador, a superficialidade de tuas emoções na agenda confusa de teus dias. Parte de mim ainda advinha a cor dos teus lençóis, o movimento do sol pela sala,  o conteúdo de tua geladeira quase sempre vazia, o recorte de tuas viagens, imãs e souvenirs que  conservas como se fossem tesouros, tua avareza camuflada sem sucesso, a música que tocará em seguida. Parte de mim ainda descansa admirando a vista de tua janela, tentando imaginar o porquê das luzes acessas nos prédios vizinhos, a confuo das ruas, a força da chuva e suspira por não saber esquecer teus caminhos. Mas parte de mim, a maior parte de mim, pulou de tua varanda, sobreviveu a grande queda e observa cá debaixo,  com desdém,  a parte minha que ainda permanece tua.









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