sábado, 27 de junho de 2015

Toda poesia

Toda poesia nasce de teus olhos e de tuas mãos em concha sobre meus seios, de sonhos, fragmentos de desejos ocultos que meus lábios não ousam transportar, mas que tímidos se revelam em suspiros noturnos. Toda poesia nasce do que me alegra, do que me fere e do que me mata.  

Décimo nono andar

Parte de mim ainda olha aquela paisagem. Teu corpo deslizando pelo quarto, multidão de potes de vidro,  livros que jamais serão lidos novamente, teus olhos apertados diante da tela do computador, a superficialidade de tuas emoções na agenda confusa de teus dias. Parte de mim ainda advinha a cor dos teus lençóis, o movimento do sol pela sala,  o conteúdo de tua geladeira quase sempre vazia, o recorte de tuas viagens, imãs e souvenirs que  conservas como se fossem tesouros, tua avareza camuflada sem sucesso, a música que tocará em seguida. Parte de mim ainda descansa admirando a vista de tua janela, tentando imaginar o porquê das luzes acessas nos prédios vizinhos, a confuo das ruas, a força da chuva e suspira por não saber esquecer teus caminhos. Mas parte de mim, a maior parte de mim, pulou de tua varanda, sobreviveu a grande queda e observa cá debaixo,  com desdém,  a parte minha que ainda permanece tua.









The cure

É sexta-feira
e não, não estou apaixonada.

Há somente um rasgo,
um corte antigo
que os dias não cicatriza.

Talvez o sábado resolva,
o domingo camufle,

a segunda esqueça.

Ou talvez seja preciso apenas

uma outra sexta-feira.

terça-feira, 16 de junho de 2015

E o homem do conserto que não veio

A torneira da pia da cozinha não para de pingar. O cheiro de tinta da parede se mistura ao cheiro da tinta do meu cabelo e no pé da escada analisando seu corpo todo esticado tentando colocar a cortina no trilho é impossível não sentir calafrios de prazer. Seu corpo se esticando, rígido e forte lembra uma pantera pronta para atacar a cortina, o trilho, a vidraça, o avião que passa lá fora. Olho para uma caixa de livros no canto da sala e o meu Neruda cansado de tantas leituras, parece tentar espiar a confusão que fazemos aqui: o amontoado de caixas, móveis, roupas, as paredes recém pintadas de azul como o céu lá fora cortado pelo avião que acabou de passar e torneira da pia da cozinha que não para de pingar. Engraçado, parece que foi ontem nossa primeira taça de vinho em copo de requeijão, a primeira vez que acordei ao seu lado ainda tonta, embriagada de gozo e álcool, a conversa despretensiosa sobre o futuro, lembro da claridade, da lua ou do poste, entrando pela janela ainda sem a cortina que você tenta instalar agora e da impressão de haver enfim, encontrado meu lugar. Sinto fome, mas a geladeira aberta e vazia revela toda sua imensidão. Olho para você que entende minha fome, meu riso escancarado, o movimento suave do meu corpo em sua direção. A pantera se acomoda na imensidão do sofá revelando toda sua nudez, pronta para me atacar. E o Neruda continua espiando e outro avião vem se aproximando e a torneira da pia da cozinha não para de pingar e o homem do conserto que não veio. Ainda bem.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Previsão do tempo

Acordei nublada
Melancólica manhã sem sol
Umidade impregnada na retina
Cinza luz emerge das coisas
Despertei em névoas
A procura de uma réstia de sol
Um fiapo de azul




sábado, 13 de junho de 2015

Urso

Queria permanecer atada à cama, 
dormir por dias, meses. 
Hibernar como fazem os ursos 
e só despertar no florescer da primavera  
com sua cara entre as minhas pernas.



sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quanto dura o amor




quarta-feira, 10 de junho de 2015

Ah, o amor!


Tudo começou com uma paquera despretensiosa, eu tinha lá meus motivos para não me envolver, mas aí veio um fim de semana, um feriado, uma semana e logo me vi assustadoramente apaixonada. Não hesitei, fiz as malas, encaixotei a mudança e cá ainda estou. Oito anos de um relacionamento íntimo e sincero, feito de altos e baixos, risos e lágrimas, surpresas e tédio.

Como em toda grande história de amor foi preciso calma e persistência, entender seus humores, curvas e desvios, rajadas de vento, sua dinâmica, seu traçado único, seu modo de falar. Afinal, só se ama o que se conhece.

Abrir mão de algumas coisas não tão importantes ou relevantes foi fundamental. Imprescindível despir a roupa antiga e nua encontrar outra roupa ou carapuça que me servisse, que combinasse com suas paisagens.

E ela me sorriu. Encheu minha vida com novos amigos, paixões, lugares, afazeres impensáveis, matizes de cinza e azul.

Conquistada? Nunca. É preciso conquistá-la a cada manhã sonolenta com o sol a pino na Paulista, em tardes de congestionamento recorde, na garoa das madrugadas, na confusão das marginais, no verde do Ibirapuera.  É preciso refazer os votos, sempre, cotidianamente, a cada chegada ou partida, seja por terra ou céu.

É mentira quando afirmavam que não existe amor em São Paulo. Sim, existe e é recíproco.

(Texto editado em 10/06/2015)

Foto: Roberto Oya




quarta-feira, 3 de junho de 2015

Junho

É quase inverno e ainda ardem na alma as queimaduras do verão.

Será preciso voltar à suavidade da primavera, abrir o peito, descascar a pele.