quinta-feira, 5 de março de 2015

Divagações de um suicida

Preciso morrer amanhã. É certo, não me restam dúvidas, amanhã será o dia de minha morte.

Talvez porque a previsão seja de sol ou talvez simplesmente porque amanhã seja uma quinta-feira. Adoro quintas-feiras, sempre foram o meu dia da semana predileto.


Então vou morrer amanhã. Ainda não me decidi como, mas já escolhi o lugar. Vai ser aqui em casa mesmo, na sala, no sofá vermelho. O mesmo sofá vermelho que foi testemunha de muitas noites de insônia, de amor,  de agonia muda diante da televisão, será agora a única testemunha da minha morte.


Já me decidi que quero uma morte limpa, rápida e indolor. Nada de muito sangue pois toda vez que vejo sangue tenho vontade de desmaiar e não posso desmaiar no meio da minha própria morte. Não posso perder a melhor parte. Quero ver e sentir tudo direitinho, afinal, comentam por aí que só se morre uma vez.


Gostaria mesmo era de morrer como minha mãe, que morreu sentada junto à mesa da cozinha observando a água para o chá ferver e viu sua vida se exaurindo à medida que escapava a fumaça pelo bico da chaleira. Morreu feliz e bem velhinha minha mãe e hoje deve estar no meio de uma plantação de chá, cercada de querubins.


Já meu pai morreu de desastre de avião com mais de uma centena de pessoas e eu fico imaginando como será morrer acompanhado de uma multidão. Será que sobem (ou descem) todos de mãos dadas em fila indiana ou viajam na mesma direção sem se tocarem ou se verem como fazem as pessoas que pegam o mesmo trem na Estação da Sé ás 18 horas? Acho que só morrendo pra saber.


A morte, penso, seja lá como for o modo que se morre, é algo muito simples, é como apertar o off do aparelho de som quando se resolve dormir ou tirar a torradeira da tomada quando o pão já se encontra bem tostado.


Mas diabos é que não consigo decidir como morrer! Preciso morrer amanhã e não tenho a mínima ideia de como proceder. Achei que fosse mais fácil, que uma vez tomada a decisão de deixar este mundo e partir para o além, escolher o modus operandi seria uma escolha tão natural e lógica como a própria morte. O problema são os inúmeros detalhes, uma infinidade deles que só servem para dificultar a tarefa de por em prática a decisão já tomada.


Acho que vou precisar de mais tempo para preparar minha morte, acho que não vai dar para ser amanhã, pois toda esta história está ficando muito complexa e nunca fui muito bom em resolver coisas complexas, elas sempre me deixam nervoso, muito nervoso, quase em pânico.


Preciso morrer amanhã, mas vou adiar meus planos para depois de amanhã ou quem sabe para a semana que vem ou quem sabe ainda na próxima primavera. Adorei a primavera, sempre foi minha estação do ano predileta.

Um comentário:

  1. Eu também adoro a primavera (e do outono também), as estações transitórias (ou será que todas o são?).
    Eu não preciso morrer, mas quando acontecer que seja, de preferência, sem muito sofrimento.
    Gostei!
    beijos,

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