sábado, 14 de março de 2015

Superpoderes

Ele me lê
Nas linhas das mãos
nas entrelinhas 
movimento lento dos cílios

Ele advinha
o que estará na página em branco
meu próximo capítulo 
sorriso tímido no escuro do quarto

Ele pressente
a música que arrepia a pele
poesia guardada
o fim que nos espera.

terça-feira, 10 de março de 2015

Autoengano

Minto quando digo que passou, quando espalho alto em mesas de bar que não te quero mais. É mentira, tudo mentira.  Finjo para mim mesma, o tempo todo, sem pudor, que não tenho nada além de suaves cicatrizes. Maquiagem. Mantenho o corpo trancado, afetos costurados, cama desfeita, luz apagada, foto tua no desktop do computador. Ainda ouço In my life todas as manhãs e ontem mesmo fiz aquele risoto que tanto te agrada. Nada mudou. Aguardo noticias, mensagens, recaídas, telefonemas, pressentimentos.  Espero o fim daquela conversa, que no fundo nunca foi uma conversa, apenas um rascunho mal feito do que deveria ter sido uma conversa. Monólogo. Espero no vazio das palavras que nunca são ditas. Minto em outros braços, no roçar de outras coxas que já me veio o esquecimento, que já não há mais beijos para ti em minha boca. Confesso, não nego, que te quis quase sem querer e mais do que a qualquer outro. Atada a ti por correntes infinitas e invisíveis. Minha nudez ainda é tua. Sonhos, devaneios, sentidos, desejos, fantasias estampam tua marca. Terça-feira. Tua ausência preenche todas as frestas, o sol não me aquece, não pode me alcançar.  Ainda estou em mil pedaços e te espero para me recompor.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Divagações de um suicida

Preciso morrer amanhã. É certo, não me restam dúvidas, amanhã será o dia de minha morte.

Talvez porque a previsão seja de sol ou talvez simplesmente porque amanhã seja uma quinta-feira. Adoro quintas-feiras, sempre foram o meu dia da semana predileto.


Então vou morrer amanhã. Ainda não me decidi como, mas já escolhi o lugar. Vai ser aqui em casa mesmo, na sala, no sofá vermelho. O mesmo sofá vermelho que foi testemunha de muitas noites de insônia, de amor,  de agonia muda diante da televisão, será agora a única testemunha da minha morte.


Já me decidi que quero uma morte limpa, rápida e indolor. Nada de muito sangue pois toda vez que vejo sangue tenho vontade de desmaiar e não posso desmaiar no meio da minha própria morte. Não posso perder a melhor parte. Quero ver e sentir tudo direitinho, afinal, comentam por aí que só se morre uma vez.


Gostaria mesmo era de morrer como minha mãe, que morreu sentada junto à mesa da cozinha observando a água para o chá ferver e viu sua vida se exaurindo à medida que escapava a fumaça pelo bico da chaleira. Morreu feliz e bem velhinha minha mãe e hoje deve estar no meio de uma plantação de chá, cercada de querubins.


Já meu pai morreu de desastre de avião com mais de uma centena de pessoas e eu fico imaginando como será morrer acompanhado de uma multidão. Será que sobem (ou descem) todos de mãos dadas em fila indiana ou viajam na mesma direção sem se tocarem ou se verem como fazem as pessoas que pegam o mesmo trem na Estação da Sé ás 18 horas? Acho que só morrendo pra saber.


A morte, penso, seja lá como for o modo que se morre, é algo muito simples, é como apertar o off do aparelho de som quando se resolve dormir ou tirar a torradeira da tomada quando o pão já se encontra bem tostado.


Mas diabos é que não consigo decidir como morrer! Preciso morrer amanhã e não tenho a mínima ideia de como proceder. Achei que fosse mais fácil, que uma vez tomada a decisão de deixar este mundo e partir para o além, escolher o modus operandi seria uma escolha tão natural e lógica como a própria morte. O problema são os inúmeros detalhes, uma infinidade deles que só servem para dificultar a tarefa de por em prática a decisão já tomada.


Acho que vou precisar de mais tempo para preparar minha morte, acho que não vai dar para ser amanhã, pois toda esta história está ficando muito complexa e nunca fui muito bom em resolver coisas complexas, elas sempre me deixam nervoso, muito nervoso, quase em pânico.


Preciso morrer amanhã, mas vou adiar meus planos para depois de amanhã ou quem sabe para a semana que vem ou quem sabe ainda na próxima primavera. Adorei a primavera, sempre foi minha estação do ano predileta.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Uma e cinquenta e três


Quero tua carne, só ela. Agora. Nada de afetos, corte todo o açúcar e venha despido de alma. Só me interessa a matéria: objeto nu e cru. Saliva, gemido ecoando na nuca. Tua língua percorrendo meu corpo, serpenteando a planície das minhas costas, entranhada entre minhas pernas, umedecendo meus sentidos. Arrepios quentes. Moreno, rígido, ágil. Serás meu enquanto for tua, sentindo apenas o que sente a pele.

Depois dos desejos satisfeitos, me abrace, se perca nos meus olhos como antes se perdera em meu corpo e só então me ame. Suavemente.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Oceano

Prendo-me aos pequenos detalhes: a cicatriz na perna, a ruga sob os lábios, o formato das unhas, teus pés. Decoro as imperfeições como se decorasse constelações, conto as pequenas manchas na pele, meu rosário preferido. Examino atentamente tuas costas e me imagino como Eva, nascendo de tuas costelas. Resisto aos teus silêncios, me entrego aos teus sorrisos e me perco no espaço ínfimo que separa nossos corpos. Qualquer distância por menor que seja é grande demais, oceano separando continentes.