quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Amar - Carlos Drummond de Andrade

Véspera

Inútil tentar decorar meu rosto com a ponta dos dedos, inútil tentar prender meu cheiro em teus pulmões. Não me olhes como se quisesse antever o futuro. Guarda apenas o meu passo ordenado ao teu, a gargalhada depois do gozo, meu desmoronamento por ti.


Realidade misturada

O blush tenta sem sucesso me dar a cor que o sol se negou.
Um beijo rasga minha boca.
O gosto da sua pele grudada na minha.
O vinho que molha meu corpo escorre pelos lençóis.
O cheiro de pão invade a sala no meio da novela.
Pés na terra e a cabeça em Marte
Ou em qualquer outro lugar que não aqui.
Planilha cheia de dados irrelevantes,
Números que não me dizem nada.
Quero mas não consigo me lembrar daqueles versos antigos
Tantas vezes sussurrados, gemidos e lambidos
Nos ouvidos, no ventre, por entre as coxas.
Violetas murchas na bancada do banheiro me espreitam.
Labirinto de ideias.
Potes coloridos na geladeira.
As badaladas do relógio da catedral.
Meu coração também não está aqui,
Não neste tempo,
Não neste espaço.
No meio da chuva que se espalha pela cidade.
Em algum lugar em que já estivemos,
Em lugares que talvez nunca estarei.

Segredos

Sim, temos nossos segredos. É segredo este fio tenso que nos une, esta saudade doce que me invade em horas e lugares inesperados na voz do Paul. É segredo como me tocas mesmo a distância e que às vezes basta ouvir nas ruas uma palavra que me faça lembrar das tuas para que eu sorria sozinha feito louca. É segredo que há algumas semanas ao acordar de um pesadelo só me acalmei depois que, em um delírio, te adivinhei no escuro ao lado da minha cama e segurei tua mão com a firmeza de quem se segura a beira de um precipício. É segredo, não conte a ninguém, que disse teu nome tantas vezes a outros, num faz de conta porque esses outros ocupavam um lugar que só quero teu. Segredo também que desejei em noites de fúria, corroída pela inveja e ciúmes que tua cidade fosse atingida por um grande meteoro, que tudo a sua volta queimasse, pois assim teria um álibi e motivos concretos para fechar-me em concha e dar-me ao luxo de viver o luto. É segredo que ainda temos segredos, que a minha estrela só brilha porque também é tua e que algumas lembranças trazem arrepio a minha pele. Mas, no fim das contas o grande segredo é perceber que sempre teremos um ao outro, apesar de termos nos perdido

Viajante

Estou perdida em algum lugar entre as Américas e a Oceania, em algum tempo obscuro entre o adeus e o agora. Não há mapas que mostrem a direção, não vejo estrelas, minjha bússola esqueci em tuas mãos. Sem rastros ou pegadas para seguir, viajo sem rumo, estradas infinitas se abrem à minha frente. E o gosto de poeira na boca, o sol na pele. Quando se está perdido não se escolhe caminho.



sábado, 6 de dezembro de 2014

Da parte e do todo

Há uma parte de mim que você não vê, nunca verá. Parte escondida, gaveta de guardados, camiseta manchada, diários, cara lavada. Nunca minha nudez é completa, há sempre algo que teima em ficar sobre a pele, adereço esquecido de modas passadas.  Existe um canto sombrio  de onde não se pode ver o  sol,  pedaço insano e criminoso onde vivo em alerta. Jamais confesso todos meus pecados, cultivo alguns em redomas de vidro, trato-os como bichinhos de estimação, salvo-conduto para outras vidas. Aliso, organizo e classifico meus defeitos com a minúcia obsessiva de um doente na tentativa vã de trazê-los sempre em ordem. Tenho uma parte em mim que desconheço e é a árdua tarefa de desvendá-la que me ocupa por inteiro.