segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Tempo

O tempo egoísta não se importa com você, com seus planos, prazos, agenda, folha de calendário atrás da porta da cozinha ou no ímã da geladeira. O tempo está se lixando para suas miudezas: a infância do filho, as férias no Caribe, a viço da juventude, a noite de amor que gostarias que durasse para sempre. Ele te joga na cara o brilho ardido do sol da segunda-feira e sem pudor ri de tuas memórias confusas, dos teus suspiros e saudades. O tempo não cura nada porque não tem interesse nenhum em curar o que quer que seja. O tempo não é doutor, muito menos remédio milagroso, é a gente que se cansa de doer e finge que esqueceu, varre tudo para debaixo do tapete, esconde as mágoas no fundo do armário e disfarça não saber que elas continuam lá prontas para latejar. O tempo não apaga afetos, ele só os embaralha no tique taque dos ponteiros, na sequência infinita dos dias. O tempo quer que os homens se fodam! Só lhe interessa esticar tua pele e seus ossos para depois lentamente com prazer sádico, murchar os lábios, pintar as mãos, sulcar o rosto, secar os olhos e cerrar a vida. O tempo não aceita desaforo.



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