terça-feira, 6 de maio de 2014

Casa de vó

O menino faz três anos e corre, corre.

Corre em volta do pé de caqui sem saber que eu também corria, não em volta deste, mas de um outro, do pai deste que ficava no quintal de uma outra casa de vó que não existe mais, ficou perdida em nuvens de lembrança. Corríamos todos no tempo em que nem se sonhava o menino. Éramos nós os meninos.

A casa, com endereço, parede, teto, telha quebrada, rodapés, vidraças e batentes, ainda existe. Mas a casa era mais do que isso. A casa era templo, espaço de sonhos, vô e vó, tios na varanda, balanço, manjar de coco, risadas, primos e mais primos. E acabou como tudo acaba, passa, morre, evapora no ar. 

Meninos crescem e vão se embora, avós e tios envelhecem e vão se embora. Fica só o pó e o mofo tomando conta de tudo, fica só o pé de caqui silencioso no quintal vazio e as jabuticabas apodrecendo no chão úmido de cimento.

E o outro menino corre, corre, agora em outra casa em torno de outra árvore em um acordo tácito com o tempo e com os olhos da tia que adoraria que este momento durasse para sempre.

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