domingo, 26 de janeiro de 2014

Já faz muito tempo que deixei de ser uma menina. 
Hoje sou muitas.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Marlboro

Encontrei um cigarro teu no fundo da gaveta e o traguei com a calma e precisão que tragavas meu corpo, cada dobra, prega, o fundo do umbigo em madrugadas sem fim de sábado que só terminavam na manhã de segunda. Traguei teu último cigarro, esquecido, amassado, incompleto, como tragavas meu espirito, minha força e meu prazer ruidoso. Depois, repletos os poros de nicotina e saudade entrei na ducha fria, esfreguei o corpo até a vermelhidão da pele, tirei o forte cheiro das mãos e cabelos. O espelho me viu surgir  limpa, fresca e nua. É meu querido, tudo acaba e o amor é tragado, feito cigarro, pelo tempo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Meu querido diário

Em uma dessas tardes de domingo na casa dos meus pais, resolvi reler meus diários antigos, período dos meus 13 aos 18 anos. Escrevia e enfeitava as folhas dos diários com tudo que me tocava, chamava minha atenção ou despertava bons sentimentos. Não me reconheci em algumas passagens, parecia que tratava-se de uma outra pessoa, no entanto em outras, percebi que não mudei nada: existem questões que ainda me atormentam da mesma maneira que aos 16, 17 anos.

Pois bem, com os diários e cadernos espalhados e abertos sobre a cama surgem algumas dúvidas: mas pra que e pra quem mesmo escrevemos tudo isso? Se tantos escritores também escreveram diários, qual a importância desses relatos íntimos para a literatura?

Mais do que simples companheiros de mocinhas sonhadoras, os gêneros confessionais (diários, memórias e autobiografias) possuem íntima relação com o desejo humano de se salvar da morte. Escrever relatos íntimos é uma tentativa de se eternizar, de eternizar uma história que muitas vezes não tem importância para mais ninguém a não ser para nós mesmos. (Afinal, cá entre nós, quem se importa se eu consegui ou não namorar com o tal do Igor?)

Manter um diálogo consigo mesmo por meio das folhas de um diário pode ser uma espécie de resposta à solidão que ronda nossa existência. Para fugirmos da solidão, contamos nossa vida íntima para um amigo, um interlocutor, que no caso se trata de um simples caderno.

O instinto autobiográfico é tão antigo quanto a escrita, tão antigo quanto o desejo humano de registrar suas vivências. No entanto, é só a partir do estabelecimento da sociedade burguesa e da noção de indivíduo, que a literatura íntima começa a se fortalecer enquanto gênero. Textos centrados no sujeito existiram sempre, porém, somente a partir do século XVIII pode-se pensar em gênero confessional ou em literatura íntima. 

Apesar de seu início estar atado ao século XVIII, seu apogeu dá-se no início do século XX, onde todo tipo de literatura íntima, sobretudo os diários, tornou-se produto de consumo e atingiu um grande número de leitores interessados no secreto. Leitores se tornam voyeurs e acreditam, com a leitura, entrar na intimidade e devassar segredos invioláveis do autor.

Em nossos dias, os diários, as memórias e as autobiografias são, juntamente com os romances, as leituras preferidas pelo público. Existe cada vez mais interesse em conhecer a rotina e o dia a dia de pessoas que admiramos, saber seus mais secretos pensamentos e até descobrir como grandes eventos repercutiam em suas vidas.

O diário de Anne Frank (1958), título mais famoso do gênero no Ocidente, é um claro exemplo sobre o interesse que um texto confessional pode suscitar no público leitor. Este diário, que já vendeu mais de 25 milhões de exemplares, é um relato em primeira pessoa de uma adolescente judia escondida da fúria dos nazistas por cerca de dois anos.

Sem poder sair às ruas e vivendo com o medo constante de ser descoberta pela polícia, Anne escreveu em um diário cartas imaginárias a uma amiga inventada. A última carta de seu diário é de 1 de agosto de 1944. Apenas três dias depois, a família de Anne foi levada a um campo de concentração. Meses depois, a epidemia de tifo levou a vida de milhares de prisioneiros, inclusive a de Anne, que tinha então 15 anos. Seu diário, publicado apenas em 1947, é um dos depoimentos mais emocionantes sobre a guerra e o Holocausto e já foi lido por milhões de pessoas.
Seu sucesso editorial é fruto tanto das circunstâncias históricas em que foi produzido, quanto da sua forma narrativa. Conhecer o cotidiano e a intimidade de uma adolescente judia nos sombrios anos da Segunda Guerra Mundial por meio de seu diário íntimo é, sem dúvida, uma experiência ímpar. Se analisarmos mais a fundo, no entanto, perceberemos que este diário, além de saciar nossa curiosidade histórica, é um grande questionamento sobre o sentido da vida.  

Se você ficou curioso e quer mergulhar e xeretar a vida de grandes escritores ou personalidades vá fundo e revire estantes, mas antes dê uma olhadinha em seus próprios diários, talvez você encontre coisas surpreendentes a respeito de si próprio.

Texto publicado originalmente em +ebooks.