terça-feira, 10 de março de 2015

Autoengano

Minto quando digo que passou, quando espalho alto em mesas de bar que não te quero mais. É mentira, tudo mentira.  Finjo para mim mesma, o tempo todo, sem pudor, que não tenho nada além de suaves cicatrizes. Maquiagem. Mantenho o corpo trancado, afetos costurados, cama desfeita, luz apagada, foto tua no desktop do computador. Ainda ouço In my life todas as manhãs e ontem mesmo fiz aquele risoto que tanto te agrada. Nada mudou. Aguardo noticias, mensagens, recaídas, telefonemas, pressentimentos.  Espero o fim daquela conversa, que no fundo nunca foi uma conversa, apenas um rascunho mal feito do que deveria ter sido uma conversa. Monólogo. Espero no vazio das palavras que nunca são ditas. Minto em outros braços, no roçar de outras coxas que já me veio o esquecimento, que já não há mais beijos para ti em minha boca. Confesso, não nego, que te quis quase sem querer e mais do que a qualquer outro. Atada a ti por correntes infinitas e invisíveis. Minha nudez ainda é tua. Sonhos, devaneios, sentidos, desejos, fantasias estampam tua marca. Terça-feira. Tua ausência preenche todas as frestas, o sol não me aquece, não pode me alcançar.  Ainda estou em mil pedaços e te espero para me recompor.

Um comentário:

  1. Estou chocada! Vi hoje esse conto, lá na confraria dos trouxas, me chamou atenção porque escrevi um com mesmo título segunda feira (08/07)!
    Sentimentos muito parecidos nós!
    http://administrandoneuroses.blogspot.com.br/2013/07/auto-engano.html

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