quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Inventário

Desejos escancarados
Arrepios na pele
Um par de brincos de prata
Três ou quatro grampos de cabelo
Manchas de vinho no lençol
Uma rima
Um verso
Parte o amor,
Resta a poesia.

sábado, 28 de setembro de 2013

Só vivendo para saber

São Paulo vai te triturar com seus dentes de cimento e aço, vai te cuspir na cara a garoa fina, te chicotear as costas com o vento incessante. Você vai perder tempo, dinheiro e juízo, vai passar noites em claro e terá dias infinitos. São Paulo vai te deixar confusa e solitária, dependente e fraca. Mas mesmo assim, com tudo isso te assombrando, você vai amá-la e chamá-la de sua. São Paulo é cidade para mulher de malandro.

Foto: Jennifer Glass

sábado, 21 de setembro de 2013

domingo, 11 de agosto de 2013

Trópico de Capricórnio

Esta cidade não me contém.
Esta avenida não me contém.
E permaneço contida em um corpo que há tempos desconheço.
Outras mãos, outros pés, outra, outra e sempre outra.
Uma sucessão infinita de outras embaralhando os meus cabelos
Multidão de vozes confundindo canções em mim.

Queimo a boca com chocolate quente 
Observo as colunas vermelhas 
As luzes dos carros da pm
A moça que rebola entre as mesas
O casal que flerta ao lado
O movimento pendular da madrugada

Não quero voltar para casa,
Transbordo em uma casa que não me pertence
Em uma cama que não me dá descanso.

Adio a chegada me distraindo com vidrinhos coloridos na farmácia,
Dialógos com desconhecidos
Antenas e torres
Lembranças inventadas
Futuros sonhados
Culpas e arrependimentos em redemoinhos

Paulista, uma e quinze da madrugada, doze graus
Sensação térmica: nenhuma.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Dezoito e quarenta e dois


Tua língua circula o bico do meu seio
Atiça minhas labaredas


Inflamável

Tua língua me cala as palavras
Sou toda gemidos


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Do perdão

Perdão por te amar demais, mas não o suficiente para seguir em frente. Perdão por não ter feito as malas, não ter encaixotado meus livros, não ter baixado minhas armas e ter me embriagado na hora errada. Perdão por ter perdido o chão e o fôlego, mas não o juízo quando perdê-lo era a única coisa certa a fazer já que nada me prendia aqui e tudo me atava a você. Perdão por ter ficado imóvel, estátua de mármore em frente à porta, ao lado do telefone, chorando baixinho num canto da cozinha. Perdão por ter guardado de forma indisciplinada meu bilhete premiado de loteria, por tê-lo jogado no fundo da bolsa junto com o espelhinho de maquiagem que lá não tem serventia porque nada tem para refletir. Perdão por não ter dito não, nem dito sim, por ter vivido por tanto tempo no limbo dos covardes, em cima do muro dos que pensam demais e esquecem que todo conhecimento só é válido se vivido. Perdão por ter desperdiçado tanto afeto, por ter deixado as labaredas da pele se apagarem, os abraços no ar, os beijos secarem. Perdão por não ter feito do meu corpo seu abrigo, por não estar disponível para a pizza de quarta, pelos domingos solitários, por ter me preocupado com o preço da passagem, com o posição do sofá na sala, com os relatórios do banco, com a crise política, com cor do vestido   quando isso tudo não tinha a menor importância. Perdão por sempre mudar o foco da conversa quando meus sentidos pareciam desfocados. Perdão por não querer falar com você, por sofrer um pouco todo dia com a saudade do que poderia ter sido nós dois, por ficar horas imaginando por onde você anda, implorando para qualquer santo que as coisas mudem, que o tempo volte para que eu possa fazer tudo diferente. Perdoa a minha tristeza enquanto você é feliz, minha culpa por não ter vivido o que deveria ter sido vivido, por ter fugido, por ter me estilhaçado. Perdão por não conseguir amar de novo, por caminhar sozinha sem rumo, por só agora conseguir te pedir perdão e quem sabe conseguir me perdoar.

 Divagações de uma madrugada inspirada por uma conversa, por um twitter e pela música do Chico.



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Bulimia

Tenho fome de palavras.
Devoro todas que encontro.
Livros e relatórios,
Bilhetes na porta da geladeira,
Notícias irrelevantes,
Anúncios pela cidade.
Mastigo demoradamente algumas,
Engulo de uma só vez outras.
Com o mel delas me lambuzo,
Sujo as mãos e as roupas
Até me fartar por inteira
Depois, lotada e satisfeita,
Cheia até a borda,
Vomito palavras pela casa,
Pelas ruas, bares e praças.
Para poder me fartar de outras.
Para novamente recomeçar o banquete
Em uma busca compulsiva e urgente.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Ambulatório


Saudade é doença crônica, passível de tratamento e controle, mas nunca de cura. Dor miúda e constante.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

"Escrevo seu nome em um grão de arroz" *



Qual a serventia de ter seu nome em um grão de arroz?

Patuá, chaveiro, recordação de viagem?
Não, não preciso de nada disso.

Quero seu nome na minha boca,
Enroscado na língua, estalando no céu.
Mantra, oração, pedido de socorro,
Delírio das noites de febre.

Palavra mágica murmurada no prazer,
Riscado nos vapores do banho.
Signo entre cubos, estrelas e setas que desenho distraída,
Gravado na pele e no convite das bodas.

Quero seu nome cavalheiro errante,
Invasor de diálogos alheios,
Rima previsível de versos improváveis,
Verdade absoluta quando entrelaçado ao meu.



Cruzando a Praça da Sé, a caminho do trabalho, um homem segura uma placa onde se lê: "escrevo seu nome em grão de arroz", daí a inspiração para o poema. A foto porém, foi tirada na Avenida Paulista, em um sábado de sol, algum tempo depois.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Amores digitais 3


Ele: enter
Ela: delete

sábado, 6 de julho de 2013

Folhetim


Bom mesmo é quando você vai além, não vira simplesmente a página, mas a arranca fora e faz dela precisos e miúdos pedacinhos coloridos, joga todos para o alto, chuva de confete no meio do quarto colorindo a noite porque quem vive no passado não tem futuro.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Resenha literária

Primeiro uma sensação de ser Alice no País das Maravilhas e tudo em volta estar se derretendo como um relógio de Dalí, aí me lembrei da minha almofada de gato que você disse que sorri como o gato dela, da Alice, e de que eu nunca te perguntei se a foto que você tirou do sabiá na janela do meu quarto ficou boa. Depois volto ao texto e observo que você deve gostar muito, muito de salmão porque ele aparece duas vezes e que também deve gostar de chá, porque isso também aparece duas vezes no seu texto, com torradas e com tv. Acho que gozar gotas coloridas deve ser como gozar confetes, um punhado deles com  purpurina na cara em plena terça-feira de Carnaval. Volto, tem uma mulher estranha na mesa da frente. Você ou o cara do texto, sei lá, penso que o problema de conhecer o escritor é que nunca sei se ele é você ou se ele é ele, deu pra entender?  Mas ele não pode ser você, porque ele esqueceu a chave do carro e você não tem carro, nem sabe dirigir como eu, talvez seja um defeito dos sagitarianos, se temos patas para que rodas? Mas o cara tá sofrendo, tá triste, impossível não ser triste no outono, mesmo no Rio de luz difusa azul.  A língua esquecida deve ser húngaro, "a única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita", só pode ser, ele dever ter lido o livro do Chico, o Buarque, não o da banca. Gabi deve ser uma mulher muita chata e sistemática porque nunca conheci uma nutricionista bacana e espero que nenhuma nutricionista se sinta ofendida com isso, na verdade, espero que nenhuma nutricionista leia isso. Adoro postais embora não tenha nenhum e ir embora é sempre melhor e mais doce do que ficar olhando para o teto esperando o sono chegar ou recolhendo as roupas espalhadas pela casa. Falando em casa, preciso ir para a minha, mas antes vou tomar uma cerveja na Vila com uma amiga cineasta e um amigo português que talvez um dia me mande um postal de aniversário. Ah, vai ter um inglês também que com certeza já tomou chá hoje. Chove e o inverno em São Paulo é cinza. Espero que ele continue dançando e você escrevendo. Será que o sabiá vai estar na janela do meu quarto amanhã?

domingo, 23 de junho de 2013

domingo, 16 de junho de 2013

Responda se puder

Ás vezes, só ás vezes, o amor dói tanto que eu preferia nunca ter amado.Mas e se não fosse naquele momento teria sido em outro? Suas mãos, seus pés suas palavras teriam me encontrado em outra noite, em outro bar? E se eu tivesse fugido ou mesmo te ignorado, haveria essa mesma névoa que agora paira sobre minha existência? Será que de qualquer maneira você teria me alcançado? Amar é benção ou acidente, destino ou distração? É possível me desfazer do que já faz parte de mim?

quarta-feira, 12 de junho de 2013

12 de junho

Hoje não vou falar de amor.

Não vou falar desse amor lenga-lenga, cheio de diminutivos e chocolate granulado. 

Não vou falar do amor silêncio maciço dos velhos casais que se amparam no caminhar um do outro, que tudo sabem no olhar. 

Não, por hoje não.

Chega do amor dos jovens namorados, noivos, recém-casados que seguem de mãos dadas certos de um futuro, certos de encontrar na próxima esquina a felicidade.

Muito menos vou falar do amor urgente dos que se esfregam e se enlaçam pelas estações e trens do metrô, do fogo da pele, dos beijos esparramados antes da partida.

Hoje, só por hoje, não vou falar de amor. Vou me calar, me fechar e o amor, só vou sentir.




Sampa

A caixa do supermercado te chamar pelo nome +  Correr riscos + Perambular pelas ruas do Centro em um dia qualquer + Trabalhar com algo que não está no seu diploma universitário + Receber elogios do vizinho porque você está usando seu chapéu vermelho lindo que foi comprado numa lojinha linda escondida em Pinheiros + Passear pela Oscar Freire e ver um monte de coisas incríveis que você não pode e não precisa comprar + Sentar sozinha no balcão de um pub lotado, beber sua cerveja predileta e voltar pra casa feliz da vida + Ainda ficar admirada com a quantidade de gente, de carros, de luzes da cidade + Sair de casa em sábado e não ter a mínima ideia de como esse dia vai terminar, nem onde, nem com quem + Ser anônima + Ser livre +  Ser solitária + Rir sozinha no ônibus + Andar pela Paulista em domingos ensolarados + Andar pela Paulista em domingos de frio e garoa +  Conhecer gente de todos os lugares do mundo + Se aproximar de quem veio do mesmo lugar que você + Sentir saudades de Minas + Sentir saudades de Sampa quando se está em Minas + Se apaixonar sempre + Ter o dinheiro contado + Segurar o choro + Ser reconhecida em eventos por causa da foto no Facebook + Acreditar que tudo vai melhorar mês que vem + Fazer coisas que nunca imaginei que faria como vender empanadas argentinas + Descobrir quem sou de verdade mas não ter a mínima ideia do que fazer com isso + Ir ao cinema na Augusta + Visitar o Masp toda terça-feira porque é de graça e ficar lá de bobeira por tempo indeterminado + Amar e odiar a confusão das ruas no Natal + Se acostumar com os dias cinzas e até começar a gostar deles + Descobrir que não vivo sem temakis e comida mexicana + Estar mais perto de qualquer lugar do mundo que se imaginar + Acordar e ligar o rádio para saber como está o tempo e o trânsito + Ter sempre um casaquinho, um guarda-chuva e dinheiro para o táxi + Descobrir que livrarias são santuários +  Ter amigos de todas as idades +  Amar a cidade que escolhi pra viver = 6 ANOS DE SAMPA

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Concluindo


Estamos juntos.
Porque não é preciso estar perto para estar junto. 
É necessário estar dentro e te tenho dentro de mim. 
Você é o homem que não vou parir.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Efêmero

As coisas somem
Os homens somem.

A carta que deveria ser entregue extraviou-se,
A caneta foi esquecida,
A menina perdeu-se no mundo.


Tudo morre.
Tudo foge.

As luzes se apagam.
O amor acaba

E os carros passam.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O verso que até uma hora atrás era tão vivo e concreto na mente e na ponta da língua agora se dilui em nuvens de pensamentos imperfeitos. As palavras são outras, o sentimento também se transfigurou. Por que diabos não parei, não dei meia volta, não me sentei na guia da calçada e escrevi o que me afligia? Porque não havia caneta, nem papel e muito menos coragem.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Depois de um poema de Neruda


Deixei meus amores guardados em meio de papeis e caixas de sapato, mas às vezes basta uma distração qualquer e eles escapam. Passo então a noite em claro, tentando caçá-los e acorrentá-los. Mais velozes do que eu espalham a saudade pela casa, tiram tudo do lugar, desfazem sonhos, confundem canções, invadem os livros, me pintam olheiras. Assim, estou sempre a vigiá-los, sabendo que um dia, novamente, vão escapar. Vão correr pelas ruas, escalar montanhas, transpor vales, ignorando distâncias, ignorando o tempo, retornando a lugares de onde jamais deveríamos ter saído.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Considerações sobre o ofício de escrever

Não existem textos, existe apenas um grande e único texto, um livro sagrado de nós mesmos. A cada dia escrevemos um pequeno parágrafo ou capítulo para no fim formamos nosso livro. E por isso todos esses textos dialogam, flertam uns com os outros, são partes do todo. Você pode mudar de estilo, mudar o narrador, trocar personagens, mas o livro ainda é o mesmo. Não há como um escritor  fugir de seu  texto único, porque não há como negar sua essência.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Amores digitais 2

Você me segue
Eu te sigo
Mas cada um segue seu caminho

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mineiridade

Sou veredas, cerrado, sertão, rio que corre ligeiro, barco de pesca, barranco, carranca, montanha verde-azul, labirinto, araucária na beira da estrada, geada matutina, Rosa, Adélia, Carlos, barroco em ladeiras, esquinas, praças, viola, matraca. palavras cantadas, causos, contos repetidos,  o que calo e desconfio, intuição primeira, leite de mãe, procissões, benção, novena, simpatia, sino que tudo sabe e espalha, manga, jabuticaba, ingá, goiaba, quitanda, rosca, queijo e café, apito de trem na infância, cidade pequena escondida, cheiro do pátio da escola, cachoeira fria na serra, pedra preciosa incrustado na rocha, calcário, bolhas, ferro, pepita de ouro, liberdade. Sou Minas. Estou em casa e posso ser o que quiser.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Divagando por aí


Reler velhos textos e como encontrar velhos amigos, mas é também como se olhar no espelho e, às vezes, não se reconhecer.

sábado, 6 de abril de 2013

Noite de sábado

Pernas cansadas, olhos cansados, braços cansados, cabeça cansada... E o coração?


Ah, esse continua batendo, não se cansa nunca.


terça-feira, 26 de março de 2013

Norte

Quer perder o rumo?

Pergunte-me
como.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Encanto

E tem dia que a gente acorda assim... querendo se encolher mais e mais, querendo só ficar quieta. Tem dia que o peito aperta, a garganta dá um nó, os olhos umedecem.... Tem dia que nada te satisfaz, nada é bom o suficiente, nenhum colo é lugar seguro. Tem dia que você só quer não ser.

Aí você abre o computador meio a contragosto, porque o mundo não parou porque você está triste, e lê um poema, escuta uma música e aquilo é como mágica... Fica fácil sorrir e o choro é de alegria, alívio, surpresa.

Agora meu dia começa, já estou encantada e vida sem encantamento não tem razão, é uma tristeza sem fim.

E você, já se encantou hoje?

sexta-feira, 22 de março de 2013

terça-feira, 19 de março de 2013

causa e efeito

Vou vivendo

Com o peso das escolhas
Palavras não ditas
Casa vazia

Havia tanto há ser feito...

Uma história
Uma estrada
Uma canção

Mas não me restou nada
além de uma sucessão de domingos chuvosos

Versos pela metade
Pedras no caminho
Abraço perdido

Só a ausência é completa

E a chuva não passa
e segunda-feira de sol não chega.








“é que já faz um tempo
que espero o nosso tempo
chegar…”


Tenho vivido uma sucessão de domingos chuvosos e sei que isso não é nada bom. Há quanto tempo não vejo o sol?

terça-feira, 5 de março de 2013

Escolhi vir caminhando, não porque fosse perto ou fácil, mas simplesmente porque andando, zanzando pelas avenidas eu conseguia visualizar melhor o momento quase mágico em que me encontrava. Só entende o destino quem sobrevive a ele e eu havia sobrevivido.Tudo e todos passavam misteriosamente e repentinamente a fazer sentido, tudo se encaixava como em um daqueles grandes quebra cabeças que montavamos, quando crianças, na sala de jantar em férias de verão que o sol se recusava a aparecer. Tudo agora tão claro e tão nítido.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Arrumação

Guardo-te entre minhas palavras prediletas: cálido, libélula, estrela. Entre as coisas que me são caras e raras, coisas envelhecidas e que não podem ser mais nada que coisas guardadas para serem vistas na luminosidade calma da tarde de domingo ou na madrugada silenciosa e fria, inundada de cansaço. Guardo-te com o aroma de baunilha que exala do corpo quente de sol nas manhãs infinitas a beira mar, em meio aos versos nunca publicados, escondidos entre rabiscos indecifráveis e livros que de tão lidos já sei de cor. Guardo-te com as lembranças queridas: a casa branca de janelas azuis da infância, o barulho do trem, o primeiro beijo. Ficas bem aconchegado entre as canções que ouço quando quero ser feliz ou quando quero apenas fugir tendo como testemunha o reflexo das luzes da cidade em poças d'água. Guardo-te no bolso da jaqueta, no fundo falso da mala, em uma caixa de sapato amarela e sigo adiante porque nada tenho a temer e a minha frente uma longa estrada se abre: reta, clara e plana.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Memória

Esqueci teu aniversário, como me esqueci de tantos outros dos quais só restaram rastros, fio de cabelo comprido no chão da sala, pelo de cachorro no paletó de veludo. Sinto teu cheiro em tardes de janeiro e até consigo ver o mar por detrás da cidade. Mergulho na água clara e rasa, observo as crianças brincando na areia. Lembro de um dia ao sol que nunca tivemos, de crianças que não existiram. Não conheço as cores e matizes, não conheço aqueles rostos, ruas e paisagens. Minha memória é pura invenção.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga. Para isto, é necessário que a linguagem não seja um sistema homogêneo, mas um desequilíbrio, sempre heterogêneo."  
Deleuze

18

Tua presa e urgência de me amar acalmam meu espirito. Fresta de luz no quarto escuro em que me tranquei há tempos e do qual não conheço o paradeiro da chave. Teu corpo espaçoso no edredom florido, bola, sol e piscina no cabelo com cheiro de cloro. Olhos claros na face corada. Outono que se adivinha. Posso antever teu futuro, não nas cartas, mas nas lembranças do meu próprio passado, enquanto contas as manchinhas nas minhas costas e desenhas com teus dedos o contorno do meu rosto. Volto a ter dezoito, sou feliz e livre na eternidade de uma tarde que se derrama pela cidade, ao som da música desconhecida do rádio ligado baixinho, na imensidão da vida lá fora, na infinitude de aniversários, formaturas, casamentos e batizados que separam minha vida da tua.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Minha vontade ainda vence seu recato.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Outro lugar


Não, eu não estava lá. Não ouvia Pink Floyd no volume máximo esperando a festa acabar às três da manhã imaginando o vento frio de junho lá fora. Eu estava aí. Em outro tempo, futuro do subjuntivo, pretérito imperfeito, observando a tarde acabar nas dobras da cortina, sentindo o cheiro do cimento quente molhado depois da chuva. Em outra casa, em seus braços, ao som de outras músicas, bebendo chá gelado com limão. Que pés me trouxeram até aqui? Em qual trilha me perdi? As pálpebras pesadas, a alma mais pesada ainda, corpo dormente, biscoito de chocolate esfarelado no sofá da sala. Vontade infinita de ignorar que eu estava lá, só querendo estar aí.


Por aí




domingo, 13 de janeiro de 2013

Números


Perceba que a maioria dos números anotados jamais serão discados. Serão esquecidos ou ignorados. Vão se dissolver na máquina de lavar no bolso da calça, serão amassados no fundo da bolsa que tudo de inútil carrega ou ainda apagados pelo suor nervoso da palma da mão. Um número anotado e jamais discado elimina inesgotáveis possibilidades de encontros, reencontros, sexo, amor, amizade, negócios, acordos. Porém, alguns números mesmo que não anotados ou rabiscados em indecifráveis garranchos serão sempre discados e jamais esquecidos.

(Inspirado por Luiz Eduardo Ballin, de quem não tenho número mas sei onde e como encontrar)

Vinte anos


E depois de tanto tempo o que tínhamos em comum? 

Um passado, o prédio do grupo escolar, uma cidade na curva do São Francisco, tardes ao sol na piscina do clube, o trem que passava ao longe, mas perto o suficiente para se acertar os relógios. A casa branca de janelas e portas azuis, alpendres, quintais, goiaba no pé, ruas sem nome, missa aos domingos, infância de pé no chão.

E sobre o que falaríamos no bar do shopping lotado? 

Amores, amigos, maridos, parentes, filhos, sobrinhos.  A que se perdeu, a que se encontrou, a que nunca amou, aquela que foi pra longe, a que permaneceu por perto. Teses, trabalho, perrengues, viagens, sonhos, rugas.

E o que resta? 

A certeza que não existe tempo grande o suficiente para apagar as amizades, os afetos e alegrias. Certeza de que por mais tortuosos que sejam os caminhos da vida, por mais confusas que sejam nossas jornadas ainda guardamos em cada uma de nós uma criança de braços abertos e sorriso no rosto.

Obrigada por me fazerem menina de novo.




Adoro os anos ímpares, são sempre ímpares.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2012 foi um ano bem diferente dos outros, valeu por dois!! Tanta coisa nova: gente, trabalho, rotina, amores, projetos. Teve notícia ruim, teve descoberta bacana, gente maravilhosa chegando pra ficar, gente maravilhosa se afastando e deixando saudade, teve choro e muita risada. Desejo que 2013 me traga coragem para encarar os pequenos e grandes desafios do mundo e também sabedoria para saber a hora certa de desistir de alguns deles. Desejo continuar rodeada de pessoas do bem, que minha irmã conquiste seus objetivos, que meu sobrinho continue crescendo com doçura e inteligência, que meus pais envelheçam com tranqüilidade, que meus amigos realizem todos os seus sonhos. Que venha 2013 e que sejamos 365 vezes mais felizes.