quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Desencontro



Enquanto ele citava Chico, ela se iluminava com Voltaire.
E quando ele andava em bando, ela solitária atravessava a rua.
E enquanto ele a esquecia, ela se refazia em outros.

sábado, 14 de janeiro de 2012


Permita-se chorar, permita-se sofrer e lamentar, mas permita-se apenas pelo tempo necessário. Não alimente ou prolongue a dor, a raiva e a tristeza, não arranque a casca da ferida como criança cutucando o joelho machucado. Deixe  elas irem embora, lentamente, e em algum momento você perceberá apenas uma leve cicatriz.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobre o amor

Gostaria de voltar ao tempo em que era possível que tu fostes embora, agora ver-te partir é impossível. Ficas aqui, sempre, grudado na minha pele, sussurrando em meus ouvidos palavras desconexas, sonhos, lembranças, cantarolando músicas que não suporto mais ouvir. Em cada canto do quarto adivinho sua figura tímida de olhos grandes e inquietos.

O cheiro do cipreste depois da chuva, a grama aparada, as mãos finas como papel de seda de minha mãe que eu segurava no momento que lhe perguntei como é o amor e ela sem hesitar, sem rodeios, respondeu: “amar é pensar”. Hoje sei que amar é mais do que pensar, amar é não poder ver-te ir embora.

Mas amar também é consertar. Tens razão quando me dizes que quero consertar o mundo, salvar quem não precisa ser salvo, quem nem ao menos quer ser salvo. Como naquele inverno que caístes com o carro no córrego gelado e eu aos prantos, à margem queria pular na água para te salvar sem se quer notar que a água não te alcançava a canela.

Quero consertar o mundo porque não posso consertar a mim mesma, minhas pernas tortas e finas, meu jeito desgovernado. Impossível salvar-me de mim mesma, da minha propensão ao abismo e às epopeias.

Desde criança tenho medo de escadas, meus pesadelos são uma grande sucessão de escadas íngremes que sobem e descem sem direção, num zique-zaque frenético e desconcertante porém logo que te conheci, logo que descobristes a mim e eu a ti, sonhei que me carregavas no colo enquanto descíamos uma longa e tortuosa escada. Me senti salva, me senti grata e desde então não consinto que partas e não consigo partir.