terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Precisões de ano novo


Preciso voltar a escrever, preciso comer frutas todos os dias, preciso fazer ginástica, preciso tirar minha conta do vermelho e ligar mais vezes para meus amigos. Preciso de tantas coisas... Preciso parar de ler seu horóscopo todas as manhãs.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

quarta-feira

Vontade de fumar um dos teus cigarros, me esparramar na tua cama, no teu corpo e esquecer o calor que faz lá fora, esquecer a falta de chuva, esquecer meu trabalho, minhas palavras, desligar o celular e desaparecer no meio da tarde, em meio a um suspiro teu, na tua boca exata, precisa, nas costas largas, na coca-cola em caneca de alumínio, entre tuas pernas e dentes. Afundar no cheiro que só tua casa tem, no barulho silencioso e constante do aquário da sala, afundar, afundar e não mais sair ou só sair quando não for mais necessário te ter ao alcance das mãos ou dos olhos porque de tão exaustos do amor será preciso ir, será preciso conhecer outras paisagens e enfrentar outras quartas-feiras.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Da despedida

Engulo a seco o amor que ainda tenho
calo as palavras que restam
recolho lágrimas.

Apago o desejo da pele
longos telefonemas 
calafrios noturnos

Sobrevivo. 

De hoje em diante não mais espera
só saudade.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Carta ao homem que se foi [i]


Você se foi, se foi sem nunca ter ido, mas se foi.


Era um dia quente, sol alto, céu azul com poucas nuvens, os meninos brincavam no terreiro, você pegou a canoa e partiu.


Não sei dizer o que senti naquele momento. Acho que adormeci, fiquei ali parada na beira do rio, olhando, olhando, olhando você partir.


Naquele dia sequei. Uma mulher seca na margem do rio. Seca por dentro e por fora. Secos os olhos, seco o peito, seco o corpo de qualquer desejo.


Gosto de me lembrar de como éramos felizes quando tudo entre nós era novo e desconhecido. Será que você na imensidão do rio se lembra das nossas brincadeiras entre as roupas guarando no varal? Das tardes em volta do pé de ingá que se debruçava na estrada? Do pôr-do-sol vermelho que se via do alpendre de nossa casa?


Naquele tempo seu corpo era o único rio que eu conhecia. Rio caudaloso em que navegava, me perdia, me afogava. Do teu sorriso brotava o mundo e de mim só encanto.


Mas agora você se foi. O rio te levou, te guiou para outras margens. Mas o pior, o pior mesmo, o que me dói e me consola num só tempo é que ainda continuamos juntos. Não é preciso estar perto para estar junto. É preciso estar dentro e você está dentro de mim. Você é o homem que não vou parir.


Mas deixa quieto. Deus sabe o que faz, você sabe o que faz e se a vida quis assim, se o rio te chamou que seja. Eu vou continuando aqui: criando os meninos, cuidando da roça, fazendo preces a Nossa Senhora e sussurando a cantiga que você gostava tanto e que agora ecoa dentro de mim: “mas apesar de tudo desfeito/ de tanto sonho morto que/ num tem mais jeito/tombando a ladeira/ já pela descida/ na tarde da vida/rompo satisfeito/ foste na jornada/ a jornada perdida/ meu amor pretérito mais que perfeito.”[ii]


[i] Texto inspirado no conto "A terceira margem do rio" de Guimarães Rosa.


[ii] Trecho da canção "Deserança" de Elomar Figueira de Melo.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Nossas palavras prediletas

Cosmonauta
Absorto entre estrelas
Nem percebes
A líbélula  pelas madrugadas
Tonta e desejosa
De seu aconchego cálido.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O fim do poema

Quando o poema está pronto?
Quando inserir a palavra derradeira?
Como saber a hora de parar?

Ora, amigos, o poema não termina nunca,
Não se extingue no fim da página ou na folha última do caderno.
O poema nasce e renasce, vive e se transforma,
A cada leitura, a cada leitor.

Porque o poema não existe em si mesmo,
Não existe no sangue, suor e lágrima do poeta.
O poema só existe no outro que o recebe,
Lê, relê,

Depois esquece.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

As coisas que realmente precisam ser ditas estão nos espaços brancos entre as palavras, entre linhas, depois do rodapé. O importante e necessário está no final do capítulo, naquele suspiro longo  enquanto se olha  a paisagem pela janela, com o dedo indicador marcando precariamente a página no livro fechado descansando sobre a perna. O que realmente importa só é dito no fim da folha, aí é que toda a obra faz sentido, tudo se revela e se desnuda, verdade definitiva.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ora, dirás,
falar com estrelas
não, não perdi o senso
no entanto digo
converso e brigo
até mesmo canto

falar com elas
é falar contigo

Laís Chaffe

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Desencontro



Enquanto ele citava Chico, ela se iluminava com Voltaire.
E quando ele andava em bando, ela solitária atravessava a rua.
E enquanto ele a esquecia, ela se refazia em outros.

sábado, 14 de janeiro de 2012


Permita-se chorar, permita-se sofrer e lamentar, mas permita-se apenas pelo tempo necessário. Não alimente ou prolongue a dor, a raiva e a tristeza, não arranque a casca da ferida como criança cutucando o joelho machucado. Deixe  elas irem embora, lentamente, e em algum momento você perceberá apenas uma leve cicatriz.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobre o amor

Gostaria de voltar ao tempo em que era possível que tu fostes embora, agora ver-te partir é impossível. Ficas aqui, sempre, grudado na minha pele, sussurrando em meus ouvidos palavras desconexas, sonhos, lembranças, cantarolando músicas que não suporto mais ouvir. Em cada canto do quarto adivinho sua figura tímida de olhos grandes e inquietos.

O cheiro do cipreste depois da chuva, a grama aparada, as mãos finas como papel de seda de minha mãe que eu segurava no momento que lhe perguntei como é o amor e ela sem hesitar, sem rodeios, respondeu: “amar é pensar”. Hoje sei que amar é mais do que pensar, amar é não poder ver-te ir embora.

Mas amar também é consertar. Tens razão quando me dizes que quero consertar o mundo, salvar quem não precisa ser salvo, quem nem ao menos quer ser salvo. Como naquele inverno que caístes com o carro no córrego gelado e eu aos prantos, à margem queria pular na água para te salvar sem se quer notar que a água não te alcançava a canela.

Quero consertar o mundo porque não posso consertar a mim mesma, minhas pernas tortas e finas, meu jeito desgovernado. Impossível salvar-me de mim mesma, da minha propensão ao abismo e às epopeias.

Desde criança tenho medo de escadas, meus pesadelos são uma grande sucessão de escadas íngremes que sobem e descem sem direção, num zique-zaque frenético e desconcertante porém logo que te conheci, logo que descobristes a mim e eu a ti, sonhei que me carregavas no colo enquanto descíamos uma longa e tortuosa escada. Me senti salva, me senti grata e desde então não consinto que partas e não consigo partir.