quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Crer, torcer, distorcer

Hilário Franco Júnior*

Seguir determinado clube é acreditar, mesmo contra evidências racionais, que ele vá vencer. Como o futebol é jogo de muitos erros (sessenta passes errados numa partida é algo comum no Brasil) e pouca pontuação (mais de três gols em uma partida não é frequente), mantém o torcedor em constante expectativa. Impotente na arquibancada, o adepto de um clube crê que sua fé e seu estímulo possam colaborar para que seus ídolos levem a divindade comum à vitória. É significativo em português o uso da palavra "torcer" para designar o ato de manifestar adesão entusiasmada à trajetória esportiva de um clube. Conta-se que a origem da acepção futebolística do termo vem do hábito de moças simpatizantes do Fluminense contorcerem durante as partidas pequenas fitas roxas, semelhantes às usadas na cintura pelo goleiro do clube nos anos 1914-22, Marcos Carneiro de Mendonça. De toda forma, uma das acepções dicionarizadas de "torcer" é "desvirtuar o significado ou a proporção real de algo". No mundo do futebol, é interpretar os fatos segundo a emoção.
Torcer é sempre distorcer, portanto. E não apenas o presente, a partida que se tem diante dos olhos, no estádio ou na televisão. É também adulterar o passado. Até hoje, no gol de desempate na final da Copa da Mundo de 1966 a bola entrou, de acordo com os ingleses, e não entrou, segundo os alemães (...).Acima de tudo, torcer é tentar distorcer o futuro, interferir nele. È esperança de “alterar o destino”, sentido que a palavra tem na língua portuguesa desde o século XIII.(...)

Assim como nos primeiros séculos os cristãos exultavam com os fracassos das divindades pagãs, no futebol torcer contra é tão freqüente e importante quanto torcer a favor. Em mais de 34% das vezes, aliás, a própria escolha de um clube ocorre por oposição ao clube de alguém afetivamente próximo, pai, irmão, amigo. (...)

Torcer contra ou a favor é enorme dispêndio de energia psíquica, é ato de fé que consome o sujeito. (...)

Enfim, é possível entrever o significado do futebol para cada povo por meio das palavras que expressam o ato de apoiar o time escolhido. Análise que pode ensinar muitas coisas, desde que não esqueça que a intensidade do sentimento religioso é muito pessoal, e no caso do futebol proporcional à paixão clubística. Para o fanático fluminense Nelson Rodrigues, “o que nós procuramos no futebol é o sofrimento. As partidas que ficam, que se tornam históricas, são as que doem na carne, na alma”. É isso que faz algumas vezes a passio do fiel ser transferida para o oficiante. É comum, como se sabe, um jogador durante certo tempo encarnar o clube, ser a figura mais representativa dele, por isso adorada, e em outros momentos ser rejeitada, vaiada, xingada, fisicamente agredida. Fenômeno semelhante ao da religiosidade popular convencional. A imagem de um santo é reverenciada enquanto o devoto acredita que ela atende seus pedidos, porém é colocada de ponta-cabeça, escondida, quebrada, quando não mais satisfaz as expectativas que se depositam nela.(...)

Se as torcidas cantam, agitam bandeiras, gritam slogans, antes que seus times entrem em campo, é porque se exibem para si mesmas, incentivam a si próprias, tentam intimidar as outras. Não é por impropriedade discursiva que se diz que "meu" time ganhou do "seu", que "meu" Deus é superior a todos os outros. Os pronomes possessivos revelam aí profundo sentimento de identificação, seja com a divindade clubística, seja com a divindade convencional. Em última análise, todo adepto do futebol torce para si próprio devido a uma identificação com o clube tão enraizada quanto a de qualquer outro fiel que encontro no seu Deus a si mesmo. A distorção egocêntrica está presente nos dois casos e pode atingir dimensões paranóicas, dependendo das circunstâncias nas quais tal sentimento é exteriorizado. (...)

De fato, futebol não é sistema religiosos autônomo e coerente de representações, crenças e práticas, é antes mosaico constituído de peças de variadas procedências. Ele não propõe uma visão transcendental do mundo, um futuro melhor a seus seguidores. Isso é impossível, pois a vitória ininterrupta de um deus provocaria a extinção dos outros e, por conseguinte, a do próprio vencedor. Deseja-se a destruição do rival, mas precisa-se dele para que a existência da própria divindade.

* “A dança dos deuses – Futebol, sociedade, cultura”, pag. 292 e seguintes.


domingo, 14 de agosto de 2011

Felipe

Espia, meu filho
O mundo por detrás das grades do portão
Espia o cão, a moto, a grama
O azul que tudo recobre
Espia o som do relógio
As revistas de bordado
Os pratinhos chineses

Espia, meu filho
As marcas nas mãos do avô
Espia o canto escuro da gaveta
A fechadura
A banana
Espia o sorisso da tia
O cheiro da cozinha da avó

Espia tudo do jeito que tudo deve ser espiado
Espia devagar, com calma e alegria
Absorva a essência do espiado e guarde em silêncio

Espia o correr do tempo que também te espia