sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

De manhã - Paulo Henriques Britto

O hábito de estar aqui agora

aos poucos substitui a compulsão

de ser o tempo todo alguém ou algo.


Um belo dia – por algum motivo

é sempre dia claro nesses casos –

você abre a janela, ou abre um pote


de pêssegos em calda, ou mesmo um livro

que nunca há de ser lido até o fim

e então a ideia irrompe, clara e nítida:


É necessário? Não. Será possível?

De modo algum. Ao menos dá prazer?

Será prazer essa exigência cega


a latejar na mente o tempo todo?

Então por quê?

E neste exato instante

você por fim entende, e refestela-se

a valer nessa poltrona, a mais cômoda

da casa, e pensa sem rancor:

Perdi o dia, mas ganhei o mundo.


(Mesmo que seja por trinta segundos.)



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