domingo, 18 de dezembro de 2011

Simplesmente sorria.
Delicie-se com a paisagem.
Tudo na vida é apenas passagem.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Crer, torcer, distorcer

Hilário Franco Júnior*

Seguir determinado clube é acreditar, mesmo contra evidências racionais, que ele vá vencer. Como o futebol é jogo de muitos erros (sessenta passes errados numa partida é algo comum no Brasil) e pouca pontuação (mais de três gols em uma partida não é frequente), mantém o torcedor em constante expectativa. Impotente na arquibancada, o adepto de um clube crê que sua fé e seu estímulo possam colaborar para que seus ídolos levem a divindade comum à vitória. É significativo em português o uso da palavra "torcer" para designar o ato de manifestar adesão entusiasmada à trajetória esportiva de um clube. Conta-se que a origem da acepção futebolística do termo vem do hábito de moças simpatizantes do Fluminense contorcerem durante as partidas pequenas fitas roxas, semelhantes às usadas na cintura pelo goleiro do clube nos anos 1914-22, Marcos Carneiro de Mendonça. De toda forma, uma das acepções dicionarizadas de "torcer" é "desvirtuar o significado ou a proporção real de algo". No mundo do futebol, é interpretar os fatos segundo a emoção.
Torcer é sempre distorcer, portanto. E não apenas o presente, a partida que se tem diante dos olhos, no estádio ou na televisão. É também adulterar o passado. Até hoje, no gol de desempate na final da Copa da Mundo de 1966 a bola entrou, de acordo com os ingleses, e não entrou, segundo os alemães (...).Acima de tudo, torcer é tentar distorcer o futuro, interferir nele. È esperança de “alterar o destino”, sentido que a palavra tem na língua portuguesa desde o século XIII.(...)

Assim como nos primeiros séculos os cristãos exultavam com os fracassos das divindades pagãs, no futebol torcer contra é tão freqüente e importante quanto torcer a favor. Em mais de 34% das vezes, aliás, a própria escolha de um clube ocorre por oposição ao clube de alguém afetivamente próximo, pai, irmão, amigo. (...)

Torcer contra ou a favor é enorme dispêndio de energia psíquica, é ato de fé que consome o sujeito. (...)

Enfim, é possível entrever o significado do futebol para cada povo por meio das palavras que expressam o ato de apoiar o time escolhido. Análise que pode ensinar muitas coisas, desde que não esqueça que a intensidade do sentimento religioso é muito pessoal, e no caso do futebol proporcional à paixão clubística. Para o fanático fluminense Nelson Rodrigues, “o que nós procuramos no futebol é o sofrimento. As partidas que ficam, que se tornam históricas, são as que doem na carne, na alma”. É isso que faz algumas vezes a passio do fiel ser transferida para o oficiante. É comum, como se sabe, um jogador durante certo tempo encarnar o clube, ser a figura mais representativa dele, por isso adorada, e em outros momentos ser rejeitada, vaiada, xingada, fisicamente agredida. Fenômeno semelhante ao da religiosidade popular convencional. A imagem de um santo é reverenciada enquanto o devoto acredita que ela atende seus pedidos, porém é colocada de ponta-cabeça, escondida, quebrada, quando não mais satisfaz as expectativas que se depositam nela.(...)

Se as torcidas cantam, agitam bandeiras, gritam slogans, antes que seus times entrem em campo, é porque se exibem para si mesmas, incentivam a si próprias, tentam intimidar as outras. Não é por impropriedade discursiva que se diz que "meu" time ganhou do "seu", que "meu" Deus é superior a todos os outros. Os pronomes possessivos revelam aí profundo sentimento de identificação, seja com a divindade clubística, seja com a divindade convencional. Em última análise, todo adepto do futebol torce para si próprio devido a uma identificação com o clube tão enraizada quanto a de qualquer outro fiel que encontro no seu Deus a si mesmo. A distorção egocêntrica está presente nos dois casos e pode atingir dimensões paranóicas, dependendo das circunstâncias nas quais tal sentimento é exteriorizado. (...)

De fato, futebol não é sistema religiosos autônomo e coerente de representações, crenças e práticas, é antes mosaico constituído de peças de variadas procedências. Ele não propõe uma visão transcendental do mundo, um futuro melhor a seus seguidores. Isso é impossível, pois a vitória ininterrupta de um deus provocaria a extinção dos outros e, por conseguinte, a do próprio vencedor. Deseja-se a destruição do rival, mas precisa-se dele para que a existência da própria divindade.

* “A dança dos deuses – Futebol, sociedade, cultura”, pag. 292 e seguintes.


domingo, 14 de agosto de 2011

Felipe

Espia, meu filho
O mundo por detrás das grades do portão
Espia o cão, a moto, a grama
O azul que tudo recobre
Espia o som do relógio
As revistas de bordado
Os pratinhos chineses

Espia, meu filho
As marcas nas mãos do avô
Espia o canto escuro da gaveta
A fechadura
A banana
Espia o sorisso da tia
O cheiro da cozinha da avó

Espia tudo do jeito que tudo deve ser espiado
Espia devagar, com calma e alegria
Absorva a essência do espiado e guarde em silêncio

Espia o correr do tempo que também te espia

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Alvinegro


O que seria do homem sem a Estrela?
Menos brilho.

E a Estrela sem o homem?
Mais solitária.

sábado, 18 de junho de 2011

Primeira impressão


Difícil descrevê-la assim a primeira vista, é preciso observá-la melhor, sondar-lhe os contornos do rosto, as nuances do olhar, o jeito de andar. Assim, num repente é como uma pintura impressionista ou se achar melhor, uma paisagem míope, indefinida. Nem bonita, nem feia. Normal, com as vantagens e desvantagens que a normalidade acarreta à uma pessoa. A vantagem de passar por vezes despercebida, anônima, a desvantagem de não ser por vezes nem se quer notada quando tudo que se quer é um pouco de atenção. Leve, muito leve. Frágil? Parece-me que não. Força nas mãos finas, nos dedos longos, nas unhas pintadas de vermelho, na nuca que adivinho por de trás do cabelo, nas sobrancelhas desalinhadas, no sexo pulsante no meio das coxas lisas. Outra, com toda a magia e mistério que só o outro inspira, atiça. Criança no galho alto da mangueira. Sem parada, nem para a tomada de fôlego. Uma festa. Nem bonita, nem feia. Normal. Mulher.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Repentinamente

De repente a palavra que se escondia é liberta e cai de cabeça no papel.

De repente ela percebe que não vale a pena se esconder, que é preciso ser lida, gritada, gemida, querida.

De repente o verso se faz, escorrega pela boca, saliva doce, gozo e se aconchega no peito, na caneta entre os dedos, palma da mão.

Ou de repente não é nada disso. ..

De repente não existe nada, a palavra não existe, é só ausência.

Mas na ausência também há poesia.

sábado, 7 de maio de 2011


Estou atenta porque hoje é sábado e tudo parece funcionar maravilhosamente bem como um poema de Vinícius.

domingo, 24 de abril de 2011



Tuas lembranças?
Não me fazem mais cócegas na alma.
São apenas brisa leve
em tarde vermelha de outono.

domingo, 10 de abril de 2011

Desassossego



Vontade doida de escrever qualquer coisa sem sentido algum, uma carta-poema que fale de amor e saudade, das nuvens de chumbo que vejo ao longe. Escrever para meu pai uma carta longa, colorida, repleta dos insetos - formigas, abelhas e joaninhas – que ele pacientemente me mostrava na infância e que agora mostrará ao neto. Escrever para minha mãe um conto choroso repleto de músicas do Lennon, com seus gritos de alegria e com cheiro de brigadeiro na panela. Vontade de escrever o livro das minhas memórias sobre meu irmão mais velho de Cuiabá que nunca existiu. Escrever sobre a solidão gigante que toma conta de mim em dias assim vazios de sentido e caos. Sobre meus romances não vividos, apenas sonhados na vai e vem da rede da varanda. Vontade doida de escrever, traduzir em palavras o que sinto e também pressinto.

sexta-feira, 11 de março de 2011



imagino como seria te amar

teria o gosto estranho das palavras
que brincamos
e a seriedade de quando esquecemos

quais palavras

imagino como seria te amar:
desisto da idéia numa verbal volúpia
e recomeço a escrever
poemas.

(Ana Cristina César)