quinta-feira, 22 de julho de 2010

É bom...


Descobrir que as pessoas são exatamente como se achava que elas fossem, olhos grandes sob sobrancelhas imperfeitas, almofada de gato, queijadinha, cócegas nos pés, afago, ver o amar que nunca se viu antes, cabrito assado com arroz de brócolis, conversar no escuro do quarto antes de dormir, céu azul, jogo de futebol, mãos, toalha em que cabem três, cheiro de xampu, sorvete de chocolate amargo, dar uma espiadinha no andar de cima, noite estrelada na lagoa, fazer da perna travesseiro, vizinhança sem luz,carinho matinal, acordar no meio da noite e vê que não se está sozinha, cerveja, fotos de infância, banho quente, coisas espalhadas pela casa, floresta com chuva, vista nenhuma, camisa nova, afeto sem nome ou medida, ir para a cama às cinco da manhã, celular desligado, música alta, cochilar no sofá da sala, trezentos e cinqüenta mil livros, chorar de alegria, não tirar foto nenhuma, guardar de memória tudo que se viu, abraço apertado que parte ao meio, estrada com chuva, voltar pra casa feliz, ter agora do que sentir saudade, paz.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sinal fechado

Por um segundo 0 pé tateia o limite calçada - avenida, o vento no rosto, velocidade, vontade de se jogar: na pista, na vida, pra morte, pro alto, tudo. Nada a temer, nada a perder, vida se dissolvendo em sangue, carne, dor. Não mais estar, ser apenas lembrança que se esvazia nos outros aos poucos na mesma medida que os outros também se tornam lembranças. Passar como passam os carros, ônibus, como passa o metrô sob meus pés, como passam os anos. Por um segundo gostaria de ver o que aconteceria se ultrapasse a linha, se tivesse coragem de me acabar no asfalto úmido. Teria meus erros perdoados? Teria o choro dos que me querem bem? Sentiriam nojo do corpo em pedaços estragando a paisagem, estragando a noite? Enlouqueço por um segundo, mas o instinto de sobrevivência animal grita e o pé volta tranquilamente para a calçada, segura. O sinal abre, atravesso a avenida, caminho pacificamente sobre a faixa branca que brilha ao encontro da luz.