domingo, 18 de abril de 2010

A torre verde suspensa no azul outono e acima das palmeiras reina indiferente aos que cruzam a praça no meio do dia. Não lhe interessa os afazeres dos homens aqui em baixo, seus pequenos e grandes pecados, as miudezas cotidianas. A torre lança sua sombra sobre a colméia humana. Mendigos caminham cambaleantes, o louco quase nu grita frases de ordem sem sentido algum, a prostituta gorda conversa com velhos chineses, a mulher boliviana pede esmolas carregando preso aos seios o filho mais novo, homens de terno que correm com suas grandes pastas pretas cheias de papéis inúteis. E tudo se confunde com as crianças uniformizadas que passam em fila guiadas por professoras assustadas, com a música sertaneja cantada aos berros, com os ônibus que passam lotados, com as ofertas de ouro, com a sirene dos carros de polícia, com o cheiro do suor de homens e mulheres que passam por aqui todos os dias ou que não voltam nunca mais, mas deixam sempre sua marca, suas pegadas no chão velho e sujo da praça, nos meus olhos cansados, na cidade que ergue novas e mais altas torres tão ou mais indiferentes do que a torre verde da catedral que desponta na minha janela no décimo andar.

3 comentários:

  1. Bela descrição urbana, enumeração de elementos que compõem o ambiente...
    Obrigado pela leitura!

    Bjs

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  2. Belíssima surpresa, esta escrita.

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  3. e tem, além da sua prosa etnográfica indefectível, uma loja onde vou todas as quintas comer um raro doce de ricota; inigualável.
    Não o como na sombra da torre bestial.
    Fujo rapidamente da feiúra ... escapo como uma serpente do marco zero.
    Zeros para a limpeza;
    a arquitetura;
    os achaques;
    o desrepeito;
    o cheiro;

    Tem por acaso a Santa Sé mais muralhas fortes para impedir os pobres, miseráveis e inválidos, fiéis ou infiéis, de sentarem-se em seus bancos... ou os bancos são só os privados?


    Lá do alto de sua sala você também vê os apartados e exclusos pelos altos ferros pontiagudos da Nossa Sé; da nossa Fé; que como nas igrejas do século XVI e XVII, tinham bancos para os brancos e os escravos.

    Mas lá de baixo, só mesmo o restolho de uma sociedade que se deixou enfeiar tanto...tempo...quanto o expurgo de um espelho que na realidade não vive.


    Sé-rá só imaginação?
    Sé-rá que vai acontecer?

    beijos e parabéns. É bom te ler.

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