quarta-feira, 28 de abril de 2010

MAPA-MÚNDI

Me escreva uma carta sem remetente
Só o necessário e se está contente
Tente lembrar quais eram os planos
Se nada mudou com o passar dos anos
E me pergunte o que será do nosso amor?

Descreva pra mim sua latitude
Que eu tento te achar no mapa-múndi
Ponha um pouco de delicadeza
No que escrever e onde quer que me esqueças
E me pergunte o que será do nosso amor?


(Thiago Pethit)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

De manhã, no meio do ônibus lotado, estou sozinha conversando com meus botões. Mas eles (que tédio!) não me dizem nada, ficam quietos e sonolentos fechados em suas pequenas casas como caracóis ao sol.
Por isso ponho-me a conversar com meu zíper que feliz e barulhento corre livre pela estrada reta sabendo sempre onde quer chegar, sem nunca sair da linha e sempre respondendo com sua voz metálica “sim, sim, sim” à todas as minhas relevantes e urgentes perguntas.

domingo, 18 de abril de 2010

A torre verde suspensa no azul outono e acima das palmeiras reina indiferente aos que cruzam a praça no meio do dia. Não lhe interessa os afazeres dos homens aqui em baixo, seus pequenos e grandes pecados, as miudezas cotidianas. A torre lança sua sombra sobre a colméia humana. Mendigos caminham cambaleantes, o louco quase nu grita frases de ordem sem sentido algum, a prostituta gorda conversa com velhos chineses, a mulher boliviana pede esmolas carregando preso aos seios o filho mais novo, homens de terno que correm com suas grandes pastas pretas cheias de papéis inúteis. E tudo se confunde com as crianças uniformizadas que passam em fila guiadas por professoras assustadas, com a música sertaneja cantada aos berros, com os ônibus que passam lotados, com as ofertas de ouro, com a sirene dos carros de polícia, com o cheiro do suor de homens e mulheres que passam por aqui todos os dias ou que não voltam nunca mais, mas deixam sempre sua marca, suas pegadas no chão velho e sujo da praça, nos meus olhos cansados, na cidade que ergue novas e mais altas torres tão ou mais indiferentes do que a torre verde da catedral que desponta na minha janela no décimo andar.