domingo, 24 de outubro de 2010

Do que é feita uma avenida?

Pedra, areia, concreto, asfalto, casarões antigos, torres modernas, cachorros, farol, panfletos, gravuras, fotos, Paraíso, rosas, semáforos, compras, polícia, restos de mim, fragmentos de ti, turistas franceses, skatistas, Consolação, saudade, alamedas, Küsse, sons, cores, cheiros, pés brancos com unhas pintadas de carmim, bolivianos, mochilas, bandeiras, trabalho, linha verde, coluna vermelha, paulistas, fast-food, chineses, muambas, segunda-feira, sábado, feriado, música, gravatas, bares, parque, corpo quente sob a garoa fria da madrugada, paisagens, travessia, passagem, mudanças, miragem e espera.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Cidade

Na multidão tudo se dissolve
Perde sentido
Camuflagem.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sobre homens e mãos - Resumo poético de uma teoria feminina


As mãos revelam o que se esconde
O que o sol não vê
Não só nas palmas de linhas riscadas
Mas carpo e metacarpo
Unhas roídas
Tons
Afago e palmada
Instrumento dedilhado
Pelas mãos o espírito advinha-se
A carne presume-se

quinta-feira, 22 de julho de 2010

É bom...


Descobrir que as pessoas são exatamente como se achava que elas fossem, olhos grandes sob sobrancelhas imperfeitas, almofada de gato, queijadinha, cócegas nos pés, afago, ver o amar que nunca se viu antes, cabrito assado com arroz de brócolis, conversar no escuro do quarto antes de dormir, céu azul, jogo de futebol, mãos, toalha em que cabem três, cheiro de xampu, sorvete de chocolate amargo, dar uma espiadinha no andar de cima, noite estrelada na lagoa, fazer da perna travesseiro, vizinhança sem luz,carinho matinal, acordar no meio da noite e vê que não se está sozinha, cerveja, fotos de infância, banho quente, coisas espalhadas pela casa, floresta com chuva, vista nenhuma, camisa nova, afeto sem nome ou medida, ir para a cama às cinco da manhã, celular desligado, música alta, cochilar no sofá da sala, trezentos e cinqüenta mil livros, chorar de alegria, não tirar foto nenhuma, guardar de memória tudo que se viu, abraço apertado que parte ao meio, estrada com chuva, voltar pra casa feliz, ter agora do que sentir saudade, paz.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sinal fechado

Por um segundo 0 pé tateia o limite calçada - avenida, o vento no rosto, velocidade, vontade de se jogar: na pista, na vida, pra morte, pro alto, tudo. Nada a temer, nada a perder, vida se dissolvendo em sangue, carne, dor. Não mais estar, ser apenas lembrança que se esvazia nos outros aos poucos na mesma medida que os outros também se tornam lembranças. Passar como passam os carros, ônibus, como passa o metrô sob meus pés, como passam os anos. Por um segundo gostaria de ver o que aconteceria se ultrapasse a linha, se tivesse coragem de me acabar no asfalto úmido. Teria meus erros perdoados? Teria o choro dos que me querem bem? Sentiriam nojo do corpo em pedaços estragando a paisagem, estragando a noite? Enlouqueço por um segundo, mas o instinto de sobrevivência animal grita e o pé volta tranquilamente para a calçada, segura. O sinal abre, atravesso a avenida, caminho pacificamente sobre a faixa branca que brilha ao encontro da luz.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Irmandade

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.


(Octavio Paz)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Tudo que tenho

Quando nada me alimenta, sustenta ou sacia.
Quando tudo que tenho é tudo que me falta.
Quando tudo que tenho é vazio.
Quando tudo que tenho é só saudade.

sábado, 15 de maio de 2010

Transbordar é preciso

Todas minhas palavras de amor são para você. As de desejo, ternura ou amizade, nem sempre. Mas as palavras de amor são todas suas, porque só você eu amo, só por você transbordo. Transbordo pela cidade, pele e poros, entre as estrelas que parecem cair no meio da estrada, no sol tímido da quarta-feira, na tela azul do computador, enquanto foge o chão e perco o ar. Não há o que fazer com tanto amor que escorre pela calçada, embriaga, afoga, encharca meus livros e meu pão. O amor me sufoca e é preciso dia após dia transbordar. Transbordo para viver e escrever cada vez mais e mais palavras de amor para você.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Eyjafjallajokull

A nuvem preta que paira sobre minha cabeça não é tristeza.

Não sofro de tédio ou nenhuma outra pertubação.

Basta olhar no fogo dos meus olhos e saberás que sou só lava quente,

Sou pedra fumegante,

Terra em constante erupção.

Sou vulcão.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

MAPA-MÚNDI

Me escreva uma carta sem remetente
Só o necessário e se está contente
Tente lembrar quais eram os planos
Se nada mudou com o passar dos anos
E me pergunte o que será do nosso amor?

Descreva pra mim sua latitude
Que eu tento te achar no mapa-múndi
Ponha um pouco de delicadeza
No que escrever e onde quer que me esqueças
E me pergunte o que será do nosso amor?


(Thiago Pethit)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

De manhã, no meio do ônibus lotado, estou sozinha conversando com meus botões. Mas eles (que tédio!) não me dizem nada, ficam quietos e sonolentos fechados em suas pequenas casas como caracóis ao sol.
Por isso ponho-me a conversar com meu zíper que feliz e barulhento corre livre pela estrada reta sabendo sempre onde quer chegar, sem nunca sair da linha e sempre respondendo com sua voz metálica “sim, sim, sim” à todas as minhas relevantes e urgentes perguntas.

domingo, 18 de abril de 2010

A torre verde suspensa no azul outono e acima das palmeiras reina indiferente aos que cruzam a praça no meio do dia. Não lhe interessa os afazeres dos homens aqui em baixo, seus pequenos e grandes pecados, as miudezas cotidianas. A torre lança sua sombra sobre a colméia humana. Mendigos caminham cambaleantes, o louco quase nu grita frases de ordem sem sentido algum, a prostituta gorda conversa com velhos chineses, a mulher boliviana pede esmolas carregando preso aos seios o filho mais novo, homens de terno que correm com suas grandes pastas pretas cheias de papéis inúteis. E tudo se confunde com as crianças uniformizadas que passam em fila guiadas por professoras assustadas, com a música sertaneja cantada aos berros, com os ônibus que passam lotados, com as ofertas de ouro, com a sirene dos carros de polícia, com o cheiro do suor de homens e mulheres que passam por aqui todos os dias ou que não voltam nunca mais, mas deixam sempre sua marca, suas pegadas no chão velho e sujo da praça, nos meus olhos cansados, na cidade que ergue novas e mais altas torres tão ou mais indiferentes do que a torre verde da catedral que desponta na minha janela no décimo andar.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Mergulho

Mergulho
No poço fundo do seu umbigo.
Encontro
No marco do seu inicio
Meu sentido enfim.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

São Paulo

São Paulo são muitas
São várias, são diversas
São como eu, como você.
São cidades que se cruzam
Que se aceitam e se repelem.
São as pernas brancas da menina,
A fala gringa do vizinho,
O homem que cala,
O outro que fala,
A música ecoando pela rua.
São Paulo são cores indecisas
São Marias, Pedros, Severinos,
São Paulos.
São todos,
Somos nós.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Liquidificador


Sólida dor
Liquidificador
Liquidificar a dor
E o que fica?
Líquida dor




Queria liquidificar minha dor,
Torná-la pastosa, quase líquida
Fácil de ser engolida, digerida.

Não quero mais essa dor grão duro
Que fica presa na garganta, aperta o peito
Curva meu corpo em vírgula.

Que bom seria se a dor
Fosse mais um xarope amargo para tosse
Que um pedaço de chocolate apaga da língua.

Mas minha dor é sólida, roliça, casca grossa
É preciso ruminá-la, degluti-la aos poucos
Mastigá-la devagar com meus poucos dentes.

E quando penso que toda dor já foi expelida
Vem outra que me enfiam goela abaixo
Sem água, sem dó nem doce.



Para Rodrigo

28 de janeiro


Noite morna e úmida, mais de meia hora no bar sozinha esperando e olhando constantemente para o celular e me deliciando com a cerveja clara até eles chegarem. Primeiro o cara que tem o coração na mão e mesmo só o conhecendo hoje tenho certeza que ficaria melhor com o cabelo curto, depois ela com suas n e mini coisas, parecendo frágil para poder ser forte, escrevendo sem parar naquele caderno pequeno frases soltas em meio a desenhos indecifráveis e ainda o outro, aquele outro da outra vez que pouco fala, nada come mas ilustra tudo. Depois de subornos, chilli com carne, confidências, apostas e brincadeiras acompanhadas de outras cervejas não tão claras quanto a primeira, o gosto do Marlboro que eu já havia esquecido e o táxi pelo Jardins, tenho certeza que cada um é como um continente a desbravar, um continente desconhecido, imenso e imerso no tempo no espaço e tudo isso é muito lindo, louco e é sempre mágico o encontro o reencontro e às vezes até o desencontro, que sempre abre novas portas em becos aparentemente sem saída. E a conversa que não terminou ao som de “change is hard” e que não termina nunca porque continua agora enquanto o sol arde lá fora e o relatório espera, porque já é necessário, é inevitável eu, você, eles e todos nós.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Verde heineken


Verde profundo
No qual me perco
Transporto
Onde não existe dor
Só o silêncio

Do copo
Transborda



Para Bel

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Play

A voz sexy da cantora é quase um sussurro e sinto saudades do que não vivi. A madrugada, a chuva, o amargo da cerveja, a dança lenta dos corpos ou quem sabe uma estrada imensa, reta, cortando paisagens desertas sob um céu de chumbo e a vontade de partir para um lugar qualquer, para a beira do mar, onde acontecerá o imprevisível que já era previsto porque a melhor surpresa é não ter surpresa alguma e porque cada minuto é único e mesmo que a música permaneça em loop durante horas será sempre a primeira vez.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Para C.

Seu cheiro escapa do meu travesseiro, brinca com meus lençóis e com a colcha branca de piquê no meio da madrugada ao som da chuva forte que alaga a cidade, chuva que você também deve estar ouvindo aí da sua cama ao lado da janela e junto com seu cheiro vem a lembrança do seu sorriso largo, lindo, imenso e eu penso que poderia me perder dentro desse sorriso e com ele vem o convite irrecusável, vem o desejo, as palavras ainda não pronunciadas, os suspiros. Sonho com o negro dos teus olhos negros e gostaria de poder mergulhar neles de me fundir à sua pele, à sua alma, porque às vezes estar perto e dentro é muito pouco, é óbvio demais, ordinário e o beijo longo e macio e a parte de dentro do seu lábio inferior tenra como um tomate maduro e o gosto do seu corpo temperando minha boca, que quer te beijar, quer te mastigar e depois engolir lentamente, sorvendo todo o mel, salivando por mais, muito mais feito lobo faminto no meio do deserto, da terra estéril que não vê há muito tempo uma chuva como essa que caí lá fora e que alaga tudo enquanto sinto seu cheiro escapando do meu travesseiro.

TPM

Tudo que eu queria agora era me afundar em uma poltrona de uma sala de cinema vazia e chorar diante de algum filme do qual não captei o mínimo de sentido. Eu queria que o chão se abrisse sob os meus pés e que eu pudesse me esconder no fundo bem fundo da terra. Eu queria não existir pelo menos por alguns minutos, pelo tempo necessário para esquecer. Queria poder mergulhar e não precisar vir à tona para respirar. Queria poder dormir até o meio do dia, acordar e poder ficar na cama até a noite, até o outro dia. Eu queria ser outra pessoa que não eu, e que essa outra pessoa quisesse ser quem sou e sendo eu mesma, agora neste instante ela estaria feliz.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

DELETE


Deletei todos os teus números
Porque do contrário já teria te ligado cem mil vezes:
Xingando, amaldiçoando, esculhambando.
Rasgando toda por dentro.


Deletei a ideia do teu corpo
Porque do contrário já o teria desejado cem mil vezes:
Fantasiando, suspirando, gozando.

Queimando toda por dentro.


Deletei nosso passado, nossa curta história
Porque do contrário já a teria contado cem mil vezes:
Aumentando, exaltando, repetindo.
Machucando toda por dentro.

Deletei teu sorriso,
Teu cheiro,
Teu gosto,
Tuas gírias e palavrões,
Tuas qualidades,
Tuas músicas,
Teu cão,
Teu time,
Tua voz.

Deletei tudo que podia deletar,
Mas num repente me vem a cabeça o 32324143
E percebo que por mais que eu tente, cem mil vezes
É impossível te deletar da minha excelente memória
.