Adeus ano velho e tudo que já não quero, que não me serve mais:
Roupas usadas, gastas, manchadas pelo tempo
Solidão errante das manhãs de domingo
Tristezas ruminadas com café
Risos forçados
Estupidez estampada na cara
Passos bêbados
Paixões trôpegas
Choro contido
Palavras engolidas a seco.
Que seja bem vinda a manhã de um novo ano.
Bem vindo janeiro
O novo de novo
O fazer diferente
O ser diferente
Sol ao som de rock inglês
Minha mão descansando na sua perna
Beijo na pálpebra
Criança correndo
Os braços do meu pai
Sorvete de pistache
Banho mormo dissolvendo o cansaço.
Na manhã do novo ano bem vinda seja a esperança
A sensação ilusória de que tudo será renovado
A alegria da novidade que dura pouco
O suficiente para alcançarmos fevereiro.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Um poema de Drummond...
PASSAGEM DO ANO
O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,
Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,
Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
São Paulo - Hora do rush
Cruza meu caminho no metrô um japonês de cara triste e sua tristeza espeta minha pele como uma coroa de espinhos. Por uma fração de segundo toda a tristeza do mundo me atinge, sou mais triste que todos os japoneses de cara triste que já passaram pelo metrô. Tenho a tristeza de milênios, afogada em ofurôs por gueixas, samurais e kamikazes. Tristeza sol nascente que me atinge e engole tudo: os carros, as luzes míopes de Natal, o cheiro de umidade que sobe do chão, o livro que tenho entre as mãos.
Mas a alegria aos poucos volta a reinar encarnada na criança loira que corre por entre as prateleiras do supermercado lotado, em meio à palavras estrangeiras, executivos apressados, pacotes de macarrão e caixas de sabão em pó. A alegria me invade, invade a minha rua, a minha cara como uma cerejeira em flor.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Ainda no espelho
No espelho vejo apenas minha imagem, pura simples, nua. Imagem sempre igual e sempre diferente. Caleidoscópio de mim mesma, porque tudo que vejo, paisagens, retratos, telas são reflexos do que sou. Sou cacos coloridos, sou bandeirinhas de junho que derretem e escorrem pela calçada com a primeira chuva da primavera.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Reflexões de aniversário
Olho no espelho e me pergunto se sou quem eu desejava ser aos quinze anos. Será que vejo o rosto que realmente tenho ou vejo apenas um rascunho do que sou? Sou o que o fez o tempo em mim, sou tempo em carne e osso. Não mato o tempo, o tempo me mata, cronocarcinoma que habita em silêncio meu peito. Tempo que me mata mas também cura outros tumores e rachaduras. Sou apenas o tempo que passa e tenho no rosto o tempo que fui.
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