quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A mulher dentro do armário

Viver é perigoso. Esta é minha maior certeza desde menina e ainda menina, lá pelos quatro ou cinco anos, resolvi que precisava de um lugar seguro para me esconder. Escolhi este armário.

Desde então o antigo armário de jacarandá-mimoso virou para mim uma espécie de “casa da arvore”, já que sempre fui muito medrosa para subir em árvores e quanto mais para permanecer em cima delas. Era para cá que eu vinha quando o medo me fazia chorar, quando alguma coisa ameaçava me ferir e parecia existir apenas para me assustar.

Adolescente, fui crescendo e abrindo espaço entre as prateleiras e gavetas. Os perigos, temores e aborrecimentos tomaram outras formas, mas o armário continuou sendo meu refúgio, uma extensão do meu quarto. Passava horas aqui dentro encolhida na expectativa que o mundo lá fora sumisse ou que eu me tornasse adulta de uma vez por todas. Aqui era o único lugar distante de qualquer perigo, longe de tudo que pudesse me ferir.

Não foi por distração ou loucura como alguns pensam que coloquei meu filho recém nascido para dormir aqui dentro. Foi intencional. Ele era tão pequeno, tão frágil que para mim não havia melhor lugar para se guardar uma criança. O armário era tão seguro para o bebê quanto meu próprio ventre. Mas ninguém entendeu e desde então todos da família e os empregados começaram a cochichar pela casa que eu estava enlouquecendo.

Então o inevitável aconteceu: quanto mais eu me escondia, mais tinham certeza que eu estava louca e quanto mais louca me julgavam mais eu me escondia. Então aos trinta e dois anos de idade tomei a decisão mais sensata de minha vida: resolvi me mudar definitivamente para este armário. Decidi passar aqui o resto dos meus dias, encolhida entre cabides, lençóis limpos, álbuns de recordações e bolinhas de naftalina.

Quero apenas me sentir segura, protegida dos perigos da vida, do mundo, longe do inferno que são outros. É aqui que vou viver como uma concha, sozinha e medrosa, louca e excêntrica até o momento do perigo derradeiro, momento em que finalmente poderei sair do meu esconderijo.

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