quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Decifrando a mulher dentro do armário

Medo seria o sobrenome perfeito para a senhora que se escondia dentro daquele armário de jacarandá-mimoso. Medo foi sempre o sentimento mais poderoso em sua vida. Desde menina tinha medo de tudo. Medo de subir em arvores, escuro, lobisomem, fada madrinha, cachorro, borboleta, xarope para tosse, mar, cachoeira, raios e trovões, bronca do pai, cara feia da mãe e até mesmo de seu reflexo no espelho.

Quis ser bailarina, mas tinha medo das centenas de pares de olhos vagalumes observando o palco e desistiu. Quis ser médica, mas tinha medo do sangue que jorrava aos pulos das feridas abertas e desistiu. Quis ser escritora, mas tinha medo das palavras que brotam sorrateiras no meio da noite e também desistiu.

Vivia sozinha, encolhida no fundo do armário. Estava sempre à espreita, não dormia, pois temia os presságios que entremeoam os sonhos.

Foi mãe e tentou a todo custo esconder seu filho no ventre mesmo depois de nascido. Não queria que o menino conhecesse o mundo, não queria que corresse perigo e acabou escondendo o garoto no armário também. Mas ele não era como ela, não tinha medo de nada, temia apenas ter os temores que a tinha a mãe e acabou se afastando dela lentamente como um barco que se afasta do porto.

A mulher que vivia dentro deste armário tinha os dedos longos, a pele muito branca e cheirava a alfazema. Era bonita, de uma beleza inquietante: olhos negros e profundos, cabelos lisos e volumosos, corpo de formas definidas e bem feitas. Quando sorria parecia uma menina e quando chorava parecia não existir.

Não foi feliz, mas também não foi infeliz. Foi medrosa apenas.

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