segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Repentes


A notícia que chega


A terra que treme


A ave que grita


O beijo roubado


A palavra cuspida


O soco



A sorte lançada


A porta na cara


A chuva que cai


O desejo que brota


A morte que alivia


O gozo




O amor que acaba


O balão que explode


O tiro que cega


O chão que se abre


A noite que surge


O riso



E o riso que se faz pranto


E o pranto que traz a certeza


Que a vida é toda


Um grande repente

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Outro verão

Toda vez que passo em frente aquela banca de jornais lembro que foi lá que você esqueceu dois maços de cigarros antes de irmos para a praia. Lembro também que calor úmido de janeiro não nos repelia, ao contrário nos atraia, porque nossos corpos grudados dissipavam o calor que nos consumia não por fora, mas por dentro. O mar azul, palavras que eu sussurrava em seus ouvidos perfeitamente compreendidas, apesar de não serem ouvidas. O sol agarrado aos telhados das casas, a musica soando alta e continuadamente pela sala, por toda a rua por todo o verão. Suaves delírios, o gosto do sal pelo corpo, a cama desfeita, a algazarra das refeições, o ventilador girando, girando e minha cabeça, meus sonhos girando com ele. A chuva fria no meio da noite e outros cigarros mentolados sendo acessos no lugar daqueles esquecidos em cima do balcão de uma banca de jornais na esquina da Paulista.

Três


Trilhos que se cruzam
Em trilhas inexploradas
Monólogos que se interceptam
Na rua
Na chuva
Na noite
Triálogo
Na cidade que era só sua
E agora é nossa
Como é nossa a palavra
Que escorre dos dedos para o papel
Entre rosas
Entre montanhas
A caminho do mar

Para Pape e Maurici

domingo, 15 de novembro de 2009

Mais do mesmo

Te procuro pela cidade,

Não te encontro.

Desconheço teu paradeiro,

Não vejo teus rastros no chão.

Qual paisagem teus olhos guardam?

Quais lábios teus beijam calam?

Quais as cores que teus sentidos acalma?

Mais uma vez te procuro.

Mas só te encontro dentro de mim.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Discutindo a relação

Adoro seu sorriso aberto
perplexo
enquanto eu tento explicar
o que não tem sentido
o que não pode ser explicado
apenas sentido.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Decifrando a mulher dentro do armário

Medo seria o sobrenome perfeito para a senhora que se escondia dentro daquele armário de jacarandá-mimoso. Medo foi sempre o sentimento mais poderoso em sua vida. Desde menina tinha medo de tudo. Medo de subir em arvores, escuro, lobisomem, fada madrinha, cachorro, borboleta, xarope para tosse, mar, cachoeira, raios e trovões, bronca do pai, cara feia da mãe e até mesmo de seu reflexo no espelho.

Quis ser bailarina, mas tinha medo das centenas de pares de olhos vagalumes observando o palco e desistiu. Quis ser médica, mas tinha medo do sangue que jorrava aos pulos das feridas abertas e desistiu. Quis ser escritora, mas tinha medo das palavras que brotam sorrateiras no meio da noite e também desistiu.

Vivia sozinha, encolhida no fundo do armário. Estava sempre à espreita, não dormia, pois temia os presságios que entremeoam os sonhos.

Foi mãe e tentou a todo custo esconder seu filho no ventre mesmo depois de nascido. Não queria que o menino conhecesse o mundo, não queria que corresse perigo e acabou escondendo o garoto no armário também. Mas ele não era como ela, não tinha medo de nada, temia apenas ter os temores que a tinha a mãe e acabou se afastando dela lentamente como um barco que se afasta do porto.

A mulher que vivia dentro deste armário tinha os dedos longos, a pele muito branca e cheirava a alfazema. Era bonita, de uma beleza inquietante: olhos negros e profundos, cabelos lisos e volumosos, corpo de formas definidas e bem feitas. Quando sorria parecia uma menina e quando chorava parecia não existir.

Não foi feliz, mas também não foi infeliz. Foi medrosa apenas.

A mulher dentro do armário

Viver é perigoso. Esta é minha maior certeza desde menina e ainda menina, lá pelos quatro ou cinco anos, resolvi que precisava de um lugar seguro para me esconder. Escolhi este armário.

Desde então o antigo armário de jacarandá-mimoso virou para mim uma espécie de “casa da arvore”, já que sempre fui muito medrosa para subir em árvores e quanto mais para permanecer em cima delas. Era para cá que eu vinha quando o medo me fazia chorar, quando alguma coisa ameaçava me ferir e parecia existir apenas para me assustar.

Adolescente, fui crescendo e abrindo espaço entre as prateleiras e gavetas. Os perigos, temores e aborrecimentos tomaram outras formas, mas o armário continuou sendo meu refúgio, uma extensão do meu quarto. Passava horas aqui dentro encolhida na expectativa que o mundo lá fora sumisse ou que eu me tornasse adulta de uma vez por todas. Aqui era o único lugar distante de qualquer perigo, longe de tudo que pudesse me ferir.

Não foi por distração ou loucura como alguns pensam que coloquei meu filho recém nascido para dormir aqui dentro. Foi intencional. Ele era tão pequeno, tão frágil que para mim não havia melhor lugar para se guardar uma criança. O armário era tão seguro para o bebê quanto meu próprio ventre. Mas ninguém entendeu e desde então todos da família e os empregados começaram a cochichar pela casa que eu estava enlouquecendo.

Então o inevitável aconteceu: quanto mais eu me escondia, mais tinham certeza que eu estava louca e quanto mais louca me julgavam mais eu me escondia. Então aos trinta e dois anos de idade tomei a decisão mais sensata de minha vida: resolvi me mudar definitivamente para este armário. Decidi passar aqui o resto dos meus dias, encolhida entre cabides, lençóis limpos, álbuns de recordações e bolinhas de naftalina.

Quero apenas me sentir segura, protegida dos perigos da vida, do mundo, longe do inferno que são outros. É aqui que vou viver como uma concha, sozinha e medrosa, louca e excêntrica até o momento do perigo derradeiro, momento em que finalmente poderei sair do meu esconderijo.