sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Enxaqueca

Primeiro abriu um olho, depois virou o rosto amassado pelo travesseiro e abriu o outro. Luz tímida se insinuava entre as pregas da cortina, lá fora o barulho anunciava uma manhã de sol. Olhando para o teto, nu entre os lençóis quentes, com a barriga roncando e aquele gosto na boca típico das noites mal dormidas é que ele teve certeza de que aquela não seria uma quarta-feira como as outras. Ela ainda estava lá. Era real, pulsante, quase palpável e não iria embora. Ficaria ali com ele durante todo o dia e quem sabe só o deixaria amanhã ou depois.

Tateou o criado mudo em busca do celular e o encontrou entre o copo de uísque vazio, a cartela de analgésico e os óculos. Ligou para o escritório e avisou que não iria trabalhar. “Que se dane o trabalho, hoje seremos só nós dois”, berrou pela casa vazia.

Ele sabia que seria inútil trabalhar ou fazer qualquer coisa com ela por perto. Ela invadia livros, confundia canções, interrompia suas refeições e noticiário da manhã. Sem falar naquela sua sensibilidade à luz que o obrigava a fazer tudo assim, na penumbra e em silêncio.

Resolveu que passaria o dia todo ali deitado na cama em sua companhia, no quarto escuro assistindo algum filme antigo do Almodóvar no volume mínimo. Almodóvar entendia o que se passava com ele e era a coisa mais apropriada nestes momentos. Seus filmes serviam de cenário e testemunhas da íntima relação, construída ao longo dos anos entre eles.

Ela às vezes aparecia do nada, outras vezes mandava recados luminosos. Mas seja lá como for era sempre devastadora. Sempre igual e ao mesmo tempo tão cheia de sutilezas que fazia com que cada aparição sua fosse única.

Na verdade, ele admitia que às vezes a presença dela era bem conveniente. Ele podia recusar o convite para aquele fim de semana com os amigos da empresa ou para aquela festa de família insuportável. O mais interessante é que era uma desculpa que todos aceitavam sem discutir e quando ele não queria falar com ninguém no trabalho ou ficar em casa sozinho no meio do feriado era a ela que evocava e pronto.

O problema era quando ela resolvia ir embora depois de um certo tempo de intensa convivência. Quando ele já estava se acostumando à sua presença e essa se tornava quase cotidiana, imperceptível e suportável, ela simplesmente sumia. Desaparecia no meio trânsito lotado, durante o banho ou reunião e quando ele se dava conta não estava mais lá.

Então, nascia nele um estranho sentimento, que nunca soube dizer com certeza se era causada pela sua ausência ou pela enorme quantidade de drogas que ele ingeria para melhor suportá-la. Era uma sensação de que algo havia se perdido e era como se estivesse oco por dentro.

2 comentários:

  1. Desde mis BLOGS:

    --- HORAS ROTAS ---

    y

    --- AULA DE PAZ ----

    quiero presentarme

    en esta nueva apertura

    del eminente otoño.


    TE SIGO --- DIARIO II ----




    Tiempo que aprovecho

    ahora para desear

    un feliz reingreso en

    la actividad diaria.

    Así como INVITAROS

    a mis BLOGS:

    --- HORAS ROTAS ---

    y

    --- AULA DE PAZ ----

    con el deseo de que

    estos sean del agrado

    personal.

    Momentos para compartir

    con un fuerte abrazo de

    emociones, imaginación y

    paz. Abiertos a la comunicación

    siempre.


    afectuosamente :
    TANIA






    jose

    ramon…

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  2. Lindo irmã!!
    Descritivo o suficiente para nos enautecer de ricas imagens e nostálgicas conclusões!
    A arte é muito pessoal e mais ainda o que se interpreta dela.
    Boa criação..boa noite..boa!

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