segunda-feira, 18 de junho de 2012

Carta ao homem que se foi [i]


Você se foi, se foi sem nunca ter ido, mas se foi.


Era um dia quente, sol alto, céu azul com poucas nuvens, os meninos brincavam no terreiro, você pegou a canoa e partiu.


Não sei dizer o que senti naquele momento. Acho que adormeci, fiquei ali parada na beira do rio, olhando, olhando, olhando você partir.


Naquele dia sequei. Uma mulher seca na margem do rio. Seca por dentro e por fora. Secos os olhos, seco o peito, seco o corpo de qualquer desejo.


Gosto de me lembrar de como éramos felizes quando tudo entre nós era novo e desconhecido. Será que você na imensidão do rio se lembra das nossas brincadeiras entre as roupas guarando no varal? Das tardes em volta do pé de ingá que se debruçava na estrada? Do pôr-do-sol vermelho que se via do alpendre de nossa casa?


Naquele tempo seu corpo era o único rio que eu conhecia. Rio caudaloso em que navegava, me perdia, me afogava. Do teu sorriso brotava o mundo e de mim só encanto.


Mas agora você se foi. O rio te levou, te guiou para outras margens. Mas o pior, o pior mesmo, o que me dói e me consola num só tempo é que ainda continuamos juntos. Não é preciso estar perto para estar junto. É preciso estar dentro e você está dentro de mim. Você é o homem que não vou parir.


Mas deixa quieto. Deus sabe o que faz, você sabe o que faz e se a vida quis assim, se o rio te chamou que seja. Eu vou continuando aqui: criando os meninos, cuidando da roça, fazendo preces a Nossa Senhora e sussurando a cantiga que você gostava tanto e que agora ecoa dentro de mim: “mas apesar de tudo desfeito/ de tanto sonho morto que/ num tem mais jeito/tombando a ladeira/ já pela descida/ na tarde da vida/rompo satisfeito/ foste na jornada/ a jornada perdida/ meu amor pretérito mais que perfeito.”[ii]


[i] Texto inspirado no conto "A terceira margem do rio" de Guimarães Rosa.


[ii] Trecho da canção "Deserança" de Elomar Figueira de Melo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário