quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

São Paulo - Hora do rush


Cruza meu caminho no metrô um japonês de cara triste e sua tristeza espeta minha pele como uma coroa de espinhos. Por uma fração de segundo toda a tristeza do mundo me atinge, sou mais triste que todos os japoneses de cara triste que já passaram pelo metrô. Tenho a tristeza de milênios, afogada em ofurôs por gueixas, samurais e kamikazes. Tristeza sol nascente que me atinge e engole tudo: os carros, as luzes míopes, o cheiro de umidade que sobe do chão, o livro que tenho entre as mãos. Mas a alegria aos poucos volta a reinar encarnada na criança loira que corre por entre as prateleiras do supermercado lotado, em meio à palavras estrangeiras, executivos apressados, pacotes de macarrão e caixas de sabão em pó. A alegria me invade, invade a minha rua, a minha cara como uma cerejeira em flor.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Reflexões de aniversário

Olho no espelho e me pergunto se sou quem eu desejava ser aos quinze anos. Será que vejo o rosto que realmente tenho ou vejo apenas um rascunho do que sou? Sou o que o fez o tempo em mim, sou tempo em carne e osso. Não mato o tempo, o tempo me mata, como um tumor que habita silenciosamente meu peito. Tempo que me mata mas também cura outros males e rachaduras. Sou apenas o tempo que passa e tenho no rosto o tempo que fui.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Repentes


A notícia que chega


A terra que treme


A ave que grita


O beijo roubado


A palavra cuspida


O soco



A sorte lançada


A porta na cara


A chuva que cai


O desejo que brota


A morte que alivia


O gozo




O amor que acaba


O balão que explode


O tiro que cega


O chão que se abre


A noite que surge


O riso



E o riso que se faz pranto


E o pranto que traz a certeza


Que a vida é toda


Um grande repente

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Outro verão

Toda vez que passo em frente aquela banca de jornais lembro que foi lá que você esqueceu dois maços de cigarros antes de irmos para a praia. Lembro também que calor úmido de janeiro não nos repelia, ao contrário nos atraia, porque nossos corpos grudados dissipavam o calor que nos consumia não por fora, mas por dentro. O mar azul, palavras que eu sussurrava em seus ouvidos perfeitamente compreendidas, apesar de não serem ouvidas. O sol agarrado aos telhados das casas, a musica soando alta e continuadamente pela sala, por toda a rua por todo o verão. Suaves delírios, o gosto do sal pelo corpo, a cama desfeita, a algazarra das refeições, o ventilador girando, girando e minha cabeça, meus sonhos girando com ele. A chuva fria no meio da noite e outros cigarros mentolados sendo acessos no lugar daqueles esquecidos em cima do balcão de uma banca de jornais na esquina da Paulista.

Três


Trilhos que se cruzam
Em trilhas inexploradas
Monólogos que se interceptam
Na rua
Na chuva
Na noite
Triálogo
Na cidade que era só sua
E agora é nossa
Como é nossa a palavra
Que escorre dos dedos para o papel
Entre rosas
Entre montanhas
A caminho do mar

Para Pape e Maurici

domingo, 15 de novembro de 2009

Mais do mesmo

Te procuro pela cidade,

Não te encontro.

Desconheço teu paradeiro,

Não vejo teus rastros no chão.

Qual paisagem teus olhos guardam?

Quais lábios teus beijam calam?

Quais as cores que teus sentidos acalma?

Mais uma vez te procuro.

Mas só te encontro dentro de mim.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Discutindo a relação

Adoro seu sorriso aberto
perplexo
enquanto eu tento explicar
o que não tem sentido
o que não pode ser explicado
apenas sentido.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Decifrando a mulher dentro do armário

Medo seria o sobrenome perfeito para a senhora que se escondia dentro daquele armário de jacarandá-mimoso. Medo foi sempre o sentimento mais poderoso em sua vida. Desde menina tinha medo de tudo. Medo de subir em arvores, escuro, lobisomem, fada madrinha, cachorro, borboleta, xarope para tosse, mar, cachoeira, raios e trovões, bronca do pai, cara feia da mãe e até mesmo de seu reflexo no espelho.

Quis ser bailarina, mas tinha medo das centenas de pares de olhos vagalumes observando o palco e desistiu. Quis ser médica, mas tinha medo do sangue que jorrava aos pulos das feridas abertas e desistiu. Quis ser escritora, mas tinha medo das palavras que brotam sorrateiras no meio da noite e também desistiu.

Vivia sozinha, encolhida no fundo do armário. Estava sempre à espreita, não dormia, pois temia os presságios que entremeoam os sonhos.

Foi mãe e tentou a todo custo esconder seu filho no ventre mesmo depois de nascido. Não queria que o menino conhecesse o mundo, não queria que corresse perigo e acabou escondendo o garoto no armário também. Mas ele não era como ela, não tinha medo de nada, temia apenas ter os temores que a tinha a mãe e acabou se afastando dela lentamente como um barco que se afasta do porto.

A mulher que vivia dentro deste armário tinha os dedos longos, a pele muito branca e cheirava a alfazema. Era bonita, de uma beleza inquietante: olhos negros e profundos, cabelos lisos e volumosos, corpo de formas definidas e bem feitas. Quando sorria parecia uma menina e quando chorava parecia não existir.

Não foi feliz, mas também não foi infeliz. Foi medrosa apenas.

A mulher dentro do armário

Viver é perigoso. Esta é minha maior certeza desde menina e ainda menina, lá pelos quatro ou cinco anos, resolvi que precisava de um lugar seguro para me esconder. Escolhi este armário.

Desde então o antigo armário de jacarandá-mimoso virou para mim uma espécie de “casa da arvore”, já que sempre fui muito medrosa para subir em árvores e quanto mais para permanecer em cima delas. Era para cá que eu vinha quando o medo me fazia chorar, quando alguma coisa ameaçava me ferir e parecia existir apenas para me assustar.

Adolescente, fui crescendo e abrindo espaço entre as prateleiras e gavetas. Os perigos, temores e aborrecimentos tomaram outras formas, mas o armário continuou sendo meu refúgio, uma extensão do meu quarto. Passava horas aqui dentro encolhida na expectativa que o mundo lá fora sumisse ou que eu me tornasse adulta de uma vez por todas. Aqui era o único lugar distante de qualquer perigo, longe de tudo que pudesse me ferir.

Não foi por distração ou loucura como alguns pensam que coloquei meu filho recém nascido para dormir aqui dentro. Foi intencional. Ele era tão pequeno, tão frágil que para mim não havia melhor lugar para se guardar uma criança. O armário era tão seguro para o bebê quanto meu próprio ventre. Mas ninguém entendeu e desde então todos da família e os empregados começaram a cochichar pela casa que eu estava enlouquecendo.

Então o inevitável aconteceu: quanto mais eu me escondia, mais tinham certeza que eu estava louca e quanto mais louca me julgavam mais eu me escondia. Então aos trinta e dois anos de idade tomei a decisão mais sensata de minha vida: resolvi me mudar definitivamente para este armário. Decidi passar aqui o resto dos meus dias, encolhida entre cabides, lençóis limpos, álbuns de recordações e bolinhas de naftalina.

Quero apenas me sentir segura, protegida dos perigos da vida, do mundo, longe do inferno que são outros. É aqui que vou viver como uma concha, sozinha e medrosa, louca e excêntrica até o momento do perigo derradeiro, momento em que finalmente poderei sair do meu esconderijo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Palavras, palavras e mais palavras

Escrevo porque não existe outra alternativa, as palavras não me deixam escolha. 

As palavras me incomodam, gritam meu nome no meio da rua, fazem cócegas na planta dos pés, cutucam a nuca no cinema, puxam o cabelo no meio da noite. 

Palavras inventadas, sonhadas ou simplesmente perdidas na voz do meu pai, no caderno de receitas da minha mãe, nos livros que eu lia clandestinamente quando adolescente. Palavras descartáveis no bilhete já sem urgência, na carta que nunca foi enviada, no amor jamais declarado, que surgem e se espalham rapidamente como o bolor na parede da sala.

Não há como derrotá-las e a única saída é me unir a elas e por isso escrevo.

Escrevo para me fundir às palavras, me misturar à elas e para me transformar também em palavra, adjetiva, substantiva, verbo. Palavra sempre aberta e a espera de uma nova e talvez definitiva interpretação.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Restos

Céu nublado entrando pela janela

O menino sorri

Dedilha meu corpo sob o vestido

Como quem mais tarde dedilhará o violão

Música que ecoa na pele

Por entre as pernas

Só eu ouço

E é apenas o que resta

Misturada ao cheiro de curry

Daquela manhã de domingo

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Fazendo crochê com as pequenas coisas...

Viajando com Gulliver


Entre Lilliput e Brobdingnag
a justa medida, a desmedida
à parte, a ponte
que parte do nada.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Questão de interpretação

Áries - Você quer que seus desejos se realizem com hora marcada, tal a vontade de viver em intensidade máxima. Mas, atenção, a sua ansiedade pode jogar pelos ares o que tende a ter um final feliz. Não tenha presa.

Acordou atrasada. Não leu seu horóscopo, não tomou café, esqueceu o guarda-chuva.Tinha presa. Não podia perder sua consulta com a famosa cartomante, há meses ansiava por este momento.

Baralho aberto sobre a mesa. Igreja. Moça jovem, bonita, serena. Família e amigos ao redor. Flores por toda parte. Não teve dúvidas, seu desejo iria se realizar: casamento.

Felicidade estalando pelo corpo. Saiu rodopiando pelo caminho, valsa matrimonial no meio da rua. Não notou o ônibus que dobrou a esquina em alta velocidade e a esmagou contra o muro.

Algumas horas depois a previsão se concretiza. As cartas não mentem jamais.




sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Enxaqueca

Primeiro abriu um olho, depois virou o rosto amassado pelo travesseiro e abriu o outro. Luz tímida se insinuava entre as pregas da cortina, lá fora o barulho anunciava uma manhã de sol. Olhando para o teto, nu entre os lençóis quentes, com a barriga roncando e aquele gosto na boca típico das noites mal dormidas é que ele teve certeza de que aquela não seria uma quarta-feira como as outras. Ela ainda estava lá. Era real, pulsante, quase palpável e não iria embora. Ficaria ali com ele durante todo o dia e quem sabe só o deixaria amanhã ou depois.

Tateou o criado mudo em busca do celular e o encontrou entre o copo de uísque vazio, a cartela de analgésico e os óculos. Ligou para o escritório e avisou que não iria trabalhar. “Que se dane o trabalho, hoje seremos só nós dois”, berrou pela casa vazia.

Ele sabia que seria inútil trabalhar ou fazer qualquer coisa com ela por perto. Ela invadia livros, confundia canções, interrompia suas refeições e noticiário da manhã. Sem falar naquela sua sensibilidade à luz que o obrigava a fazer tudo assim, na penumbra e em silêncio.

Resolveu que passaria o dia todo ali deitado na cama em sua companhia, no quarto escuro assistindo algum filme antigo do Almodóvar no volume mínimo. Almodóvar entendia o que se passava com ele e era a coisa mais apropriada nestes momentos. Seus filmes serviam de cenário e testemunhas da íntima relação, construída ao longo dos anos entre eles.

Ela às vezes aparecia do nada, outras vezes mandava recados luminosos. Mas seja lá como for era sempre devastadora. Sempre igual e ao mesmo tempo tão cheia de sutilezas que fazia com que cada aparição sua fosse única.

Na verdade, ele admitia que às vezes a presença dela era bem conveniente. Ele podia recusar o convite para aquele fim de semana com os amigos da empresa ou para aquela festa de família insuportável. O mais interessante é que era uma desculpa que todos aceitavam sem discutir e quando ele não queria falar com ninguém no trabalho ou ficar em casa sozinho no meio do feriado era a ela que evocava e pronto.

O problema era quando ela resolvia ir embora depois de um certo tempo de intensa convivência. Quando ele já estava se acostumando à sua presença e essa se tornava quase cotidiana, imperceptível e suportável, ela simplesmente sumia. Desaparecia no meio trânsito lotado, durante o banho ou reunião e quando ele se dava conta não estava mais lá.

Então, nascia nele um estranho sentimento, que nunca soube dizer com certeza se era causada pela sua ausência ou pela enorme quantidade de drogas que ele ingeria para melhor suportá-la. Era uma sensação de que algo havia se perdido e era como se estivesse oco por dentro.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Haicais

I

Pinhão no fogo
Casa de vó
Crianças em férias.


II

Janela aberta
Apito de trem
Noite estrelada.



III

Criança de pé sujo
Muro baixo
Amoras roubadas.



IV

Piranha no rio
Carranca de proa
Verão no ar.



V

Cidade de Minas
Sob a luz da lua
Velas em procissão.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Mãos


As mãos da velha italiana sentada ao meu lado no metrô
Parecem tão conhecidas e familiares.

As mesmas manchas e rugas,
Os mesmos anéis de ouro foscos pelo tempo,
A maneira como repousam suavemente ao longo das pernas.

As mãos da velha italiana sentada ao meu lado no metrô
São as mãos que terei um dia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Na manhã verde de um domingo

Leve
Seu corpo sobre o meu

Compensa

O peso monstruoso do silêncio
O amargo da espera
A força cortante de um não

domingo, 23 de agosto de 2009

Desilusão amorosa


Amava todos os cães que encontrava pelas ruas.
A recíproca nem sempre era verdadeira.
Entre delírios e latidos, morreu de raiva.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Viagem

Na geometria do teu corpo,
Armadilhas para os sentidos.
No gozo sou outra,
Me transformo,
Viajo.


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Fragmentos de uma manhã



Bandidos fecham túnel no Rio de Janeiro e assaltam motoristas.
Morte de jovem causa distúrbios em periferia de Paris.
Líder opositora de Mianmar é condenada a 18 anos de prisão.
Um poeta espanhol distribui panfletos na Praça da Sé.

O que é margem e o que é marginalidade?
E eu, cotidiana, fútil e tributável, de qual lado estou?
Quantos graus tem minha miopia?
Qual deverá ser meu próximo movimento?

Mundo, mundo, vasto mundo,
Se não é possível a rima, será possível uma solução?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Fim de caso

Du, você me ama?

Amo.

Quanto?

Muito.

Muito quanto?

Muito muito.

Du, eu também te amo.

Muito,muito pouco.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Crise de asma

Tento respirar
Não consigo
Inspiro...
O ar escapa
Persigo
Persisto
O ar foge
Expiro...
Com cuidado

Inspiro...
Me elevo
Tentando respirar

Inspiro...
Mais alto
Mais alto

Expiro...
O ar escapa
Devagar

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Naftalina


Não, não te esqueci. Confesso que até tentei, mas desisti. É inútil lutar contra a minha natureza e nadar contra a corrente. Então, só te guardei. Guardei junto com aquele vestido longo de verão que eu adoro e é impossível vestir no inverno paulistano. Guardei na gaveta dos amores impossíveis, das fantasias não realizadas, dos desejos sufocados, do carinho infinito. Talvez, num dia claro de verão eu tire o vestido da gaveta, saia pela avenida e num ímpeto te telefone e vá ao teu encontro. No entanto, teremos um grande problema: o insuportável cheiro de naftalina.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Outra pequena história

Adorava feijoada e aos sábados futebol e cerveja. Uma tarde, chegou mais cedo do futebol. Bêbado, pegou a mulher na cama com outro. Não hesitou: desferiu com a faca da cozinha um golpe certeiro. No dia seguinte, comeu, com gosto, na feijoada uma orelha com brinco de ouro.

Pequena história

Ao sol da manhã, limpava a piscina com satisfação. Pensou na mulher e nos filhos. Lágrimas escorreram pela face, sentiu um nó na garganta e um aperto no peito. Meia hora depois foi encontrado morto: infarto.


domingo, 5 de julho de 2009

Desejos de uma manhã de sábado


Que teu corpo seja do meu refúgio,
Meu sexo do teu desejo a casa,
Teus lábios do vinho minha taça.

Que teu coração seja do meu a recompensa,
Teus pés sigam sempre meus passos,
Tua alma e a minha presas em um laço.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sou gata


Me esfrego
Me enrosco
Me esparramo


Entre tuas pernas
Em teus pêlos
Em teus passos

Sempre esperta
Sempre à espreita
Sempre à espera


De um afago
De um pedaço
Do infinito dos teus abraços


domingo, 28 de junho de 2009

Obituário

Morreu

De morte matada

Morte morrida

Morte sofrida

Morte calada



Mas não foi bala perdida

Não foi veneno ingerido

Nem mesmo golpe de faca desferido


Morreu do coração

De coração partido

Autobiografia

Sou inglesa, de excelente procedência.
Redonda e funda.
Quieta e imóvel.
Sempre à espera de alguém que me sacuda.
Meu sobrenome é o que contenho.
Altas temperaturas não me abalam.
A poeira me incomoda.
Gosto de marcas de batom e detergente de limão.
A água fria me desperta.
A esponja me faz cócegas.
Mãos descuidadas me derrubam.
O chão me acolhe.
Eu era uma xícara, agora sou caco

domingo, 14 de junho de 2009

Dúvida

Você ainda existe?

Ainda posso te tocar?
Posso te ouvir?
É possível sentir teu cheiro?

Se afirmativo,
Por que estou sentindo
Uma monstruosa saudade?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Sonho só
Só ao sol
Só em sol
Sou só
E é só

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O nascimento de Vênus


Manhã de domingo, calor.Um leve incomodo no ventre. A noite havia sido agitada: sonhos e pesadelos, medo e excitação.

Ela se levanta, uma estranha sensação percorre seu corpo, se olha no espelho demoradamente e meticulosamente. Apalpa seu corpo. Os pequenos seios se insinuam pela camisola fina. Os cabelos curtos mostram a curva do pescoço.

Olha-se no espelho mais uma vez e se descobre bonita. Sorri.

Os olhos faíscam, o ventre dói e ali no espelho, não mais se vê, é outra. Outras mãos, outros pés, outro ser.

Vê-se mulher e o corpo se contrai bruscamente. Se contorce com a dor mas sorri e compreende que naquele instante morre uma e nasce outra.

Morre a menina e nasce a mulher no sangue quente que escorre por suas
pernas.

terça-feira, 7 de abril de 2009

"A solidão às vezes parece uma cruz, mas também pode ser uma grande benção"