terça-feira, 21 de novembro de 2006

Do cansaço


A primeira vez que me senti cansada eu deveria ter uns dez anos. Num fim de tarde depois de um dia inteiro caminhando pelas montanhas cheguei na casa da minha avó e de banho tomado e barriga cheia cai na cama sentido o corpo pesado, como se já não fosse meu e a beira de um sono fácil e profundo, pensei: “Então isto que é estar cansada? Que sensação gostosa!"

Depois com o passar do tempo o cansaço ficou cotidiano. Os olhos que se fecham subitamente diante do computador às três da tarde de uma terça-feira, os pés que não se agüentam mais no sapato de bico fino, a inércia diante da televisão mesmo havendo muito trabalho sobre a escrivaninha, o corpo que se dissolve na água morna do banho.

Agora tudo é cansaço, “cansa ser” já dizia Fernando Pessoa, cansa esta busca inútil, esta viagem sem volta, os inúmeros compromissos em que se vai sem vontade, os infindáveis e-mails na caixa postal, o telefonema que se espera em vão.

Cansado de mim anda o mundo. Cansada do mundo eu vivo, até que um dia este cansaço todo vence e finalmente vou ter meu merecido descanso. Pra sempre.